Garruk Falabravo já esteve profundamente em contato com a natureza, um potente invocador de feras e mestre da magia verde... até que a necromante Liliana Vess o amaldiçoou usando o perigoso artefato conhecido como o Véu de Corrente. Imbuído de mana preto e isolado da voz da natureza, Garruk tornou-se um assassino selvagem com um único objetivo: encontrar Liliana e fazê-la reverter o que fizera.
Garruk rastreou Liliana até o mundo de Innistrad, onde se enfrentaram novamente. Liliana ganhou vantagem por tempo suficiente para escapar. No rescaldo dessa batalha, levado à beira da loucura pela maldição do Véu, Garruk enfrenta um momento crucial de decisão...
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Acordo e abro os olhos. O ar fede a morte e pós-morte. O perfume da bruxa está em algum lugar ali, mas é fraco. Estou prostrado, metade submerso na água. Os gritos de aves carniceiras ecoam em meus ouvidos. Tudo dói.
Um pássaro preto e fedorento pousa no meu peito. Agarro-o com ambas as mãos, quebro seu pescoço e o arremesso. Seu cadáver faz um respingo.
Inalo um bocado de ar mofado e me sento. Estou em um pântano, à noite. O brejo ao meu redor está repleto de pássaros banqueteando-se com pedaços retalhados de coisas que um dia foram mortos-vivos. Não há luz, mas consigo ver no escuro.
Pântano | Arte de Adam Paquette
Os restos dos servos da bruxa me cercam. Eu os matei.
Ela quase me matou.
Onde ela está?
Onde está meu machado?
Há uma forma longa e fina sob a água ao meu lado. Estendo a mão e ela se fecha em torno de um cabo de madeira. Puxo meu machado para fora do pântano e o encosto em um tronco caído. Aves carniceiras ao meu redor se dispersam, pousando nas árvores acima.
A exaustão me atinge novamente, e estou de volta ao meu quarto na última estalagem em que dormi, semanas atrás. O tronco caído é a cama, mas nenhuma cama é grande o suficiente para mim. Deito-me no chão e afundo novamente na lama.
Uma fera tão alta quanto eu e tão larga quanto alta aproxima-se e fareja minha forma imóvel. Ela cheira quase corretamente, mas há decomposição por baixo, a mesma que agora sempre emana de mim. Sob seu pelo, sua pele é atravessada por veias pretas, exatamente como a minha.
Eu a invoquei durante a luta com a bruxa.
Arte de Dave Kendall
Ergo a cabeça para olhá-la. Ela salta para trás, depois vacila ao aterrissar sobre as patas traseiras.
Ela solta um rosnado estrondoso e, quando fala, é o estalajadeiro, tremendo de medo. "Você assusta os outros fregueses", diz ele. "Não pode ficar aqui novamente esta noite." Ele não tem certeza se conseguiria me enfrentar em uma luta, mas o desespero em sua postura diz que ele pode tentar.
Ele se afasta para trás, ligeiramente, e quase gorjeia. "Dizem que há uma matilha de lobisomens por aqui que tenta fazer o bem, apesar de sua maldição." Ele só quer que eu vá embora. "Você deveria procurá-los. Eles só aceitam os fortes, no entanto. Matam os fracos."
"Eu pareço fraco para você?", rosno.
"Não, senhor", ele bufa. Vira-se e sai mancando do meu quarto, espalhando água a cada passo.
Mais sons de respingos vêm da direção oposta agora. São mais lentos, e mais altos, e uma onda de ar podre rola sobre mim. Sento-me novamente. Estou fora da estalagem, e os densos aglomerados de árvores são edifícios amontoados na pequena cidade. Há uma massa enorme de cadáveres inchados, um pouco maior que a fera com quem eu estava falando, vindo direto em minha direção.
Skaab Golias | Arte de Volkan Baga
Os pássaros se dispersam com uma explosão de ruído. "Ataque de costureiro!", gritam eles, enquanto voam para longe. "Salvem as crianças!" Se ele quer matar os pássaros da cidade, terá que me matar primeiro. Levanto-me, puxando-me com o machado. Ainda estou sangrando por cortes nos braços. Alguns deles vazam um líquido preto. Minhas costas doem quando me empertigo, mas tenho força suficiente para enfrentar esta coisa.
E se eu não o fizer, morrerei. Eu provavelmente já estava morrendo aqui de qualquer forma.
Invisto contra ele, gritando. É uma bola de cadáveres humanos, de cerca de um metro e meio de diâmetro, com outro cadáver como cada uma de suas três pernas e dois braços, e um lobo podre e carcomido incrustado no topo, onde deveria estar a cabeça. Meu machado corta o ombro da coisa com um som úmido. Uma das pernas do lobo balança livremente onde a separei do corpo. Seu braço esquerdo gira para me retalhar com garras prateadas e reluzentes, mas o impacto do meu machado empurra a coisa quinze centímetros para trás. Faz apenas um arranhão superficial. Puxo meu machado. Seu braço direito vem em minha direção, mas me abaixo dentro de seu alcance e giro o machado contra seu braço superior, que é um par fundido de pernas humanas. Faço um corte profundo e suas garras me erram, mas seu braço esquerdo está voltando e estou preso.
A coisa dá um solavanco para a esquerda, soltando-se do meu machado, e cai de lado na lama com um grande respingo. Minha fera está lá, de cabeça baixa, com suas presas curtas agora cobertas de preto reluzente. Estou encharcado, mas meu machado está livre. Ergo-o e o desço sobre os ombros da coisa, cortando o cadáver do lobo podre do topo. A coisa toda estremece e para de se mover.
Nenhuma outra criança-pássaro cairá diante desta monstruosidade.
A fera aproxima-se de mim, lentamente, e solta um gemido baixo. Agora é Pavel, o lobisomem que lidera a matilha sobre a qual o estalajadeiro me falou. "Sou Pavel", diz ele. "Somos todos lobisomens. Você é... outra coisa... mas estamos caçando o costureiro que fez isso. Ela é durona, e poderíamos usar sua ajuda. Quer vir conosco?"
Ele pode me ajudar a encontrar a bruxa. "Onde?! Onde ela está!?" Agarro-o pelas presas e grito em seu rosto.
Ele recua, hesitante. Movendo-me com ele. Ele rosna. "Você precisa mostrar mais controle do que isso, ou mataremos você também." Seus olhos minúsculos brilham com um pouco de simpatia e muito cálculo.
Solto suas presas e me empertigo o máximo que posso, apesar da dor. "Vocês poderiam tentar."
Ele recua sobre suas ancas, não mais ameaçado, e quase ronrona. "Espero que não precisemos. Venha comigo." Ele vira as costas e caminha pesadamente para a escuridão do pântano.
Sigo cambaleando atrás dele. Caminhamos em silêncio por um tempo. Ele serpenteia pela floresta, aparentemente ao acaso. Algumas vezes, cruzamos nosso próprio caminho. "Para onde estamos indo?"
Ele solta um rosnado baixo. "Vivemos longe da civilização, onde nossa condição não pode ferir ninguém além de nós mesmos. Os outros não o aceitarão imediatamente; você terá que ganhar a confiança deles."
"Mas vocês matam costureiros."
Pavel vira a cabeça para me encarar enquanto caminhamos e grunhe. "Matamos zumbis. Não matamos criaturas sencientes. Nós as incapacitamos e as deixamos com as autoridades competentes." Ele volta a cabeça para a trilha à nossa frente. "Se você insistir em matar sua presa, não será permitido permanecer conosco."
Ouço o grito de um alce por perto. Meu estômago ronca. "Espere aqui." Afasto-me até não conseguir mais ouvir Pavel, subo três metros em uma árvore e observo.
Ele está vindo por aqui.
Fico de pé no galho, preparo meu machado e espero.
Alce Trilha-da-alvorada | Arte de John Avon
O alce passa bem debaixo de mim. Salto do galho e a parte chata do meu machado atinge a nuca dele ao aterrissar. Seu cadáver cai de lado e atinge a lama com um respingo surdo.
Puxo-o para um barranco seco. Ele cheira a limpo, exatamente como eu não cheiro. Puxo minha faca, corto uma longa vinha de uma das árvores, penduro o alce pelos chifres e o abro do quadril ao pescoço. O sangue que goteja acumula-se sob o cadáver, primeiro formando uma poça e depois escorrendo para o pântano. Estendo a mão para dentro, seguro a bexiga fechada, a retiro e a jogo na água. Os intestinos vão para a lama em seguida com um estalo e um som de sucção.
Pavel aproxima-se de mim novamente, ronronando, enquanto retiro o fígado do alce. "Sua caçada tem sido inestimável para nós. Teríamos morrido de fome sem você. Decidimos que você pode ficar."
Jogo o fígado para ele, e ele o apanha no ar com o focinho.
Estou faminto, e a carne cheira maravilhosamente bem, mas Pavel provavelmente também está com fome. Corto três costelas, com pele e tudo, e jogo o pedaço em sua direção. "Então, quando vamos caçar costureiros?"
"Hoje à noite", diz ele antes de arrancar um pedaço do naco de alce morto. Esfolo o resto, corto uma costela e eu mesmo mordo um pedaço de carne. O gosto é incrível.
Terminamos o alce entre nós dois com facilidade. Ele deita-se de quatro e geme quando seu estômago atinge o chão. Deito-me de costas. Compartilhamos um longo momento, cada um descansando e respirando no pântano, enquanto digerimos minha presa.
Líder da Matilha de Garruk | Arte de Nils Hamm
Sento-me, entediado. "Então, onde ela está?"
Ele olha para mim, irritado, e grunhe. "Não sabemos exatamente. Em algum lugar perto de Gatstaf, provavelmente a caminho de Gavony."
"Eu a encontrarei." Levanto-me e coloco o machado no ombro.
"Tenha cuidado", diz ele. "Qualquer costureiro que se preze terá guardiões. Você não deve enfrentá-los sozinho." Viro-me para sair. "E se você a matar", ele geme, "não será permitido retornar. Não somos feras." Afasto-me dele para dentro da mata.
Vagueio pelo pântano, procurando por qualquer sinal dela. Farejo o chão ocasionalmente, mas não consigo distinguir o perfume dela em meio ao meu próprio.
Há algo em um galho ali adiante. Aproximo-me e encontro um pedaço rasgado de seda roxa. Levo-o ao nariz e inalo. É ela.
Coloco-o em uma bolsa no meu cinto, agacho-me e farejo. Ali está. É fraco, mas ela deve ter passado por aqui. Há galhos quebrados ali também, rachados por pés humanos. Pequenos, exatamente como os dela. Dou cinco passos e farejo o chão novamente. Ainda está lá. Mais quinze e outro farejar no chão, e sei que a peguei.
O rastro dela me leva pelo pântano, esquivando-me por cima de árvores e contornando poças de água parada. Tivesse ela passado por dentro delas, poderia ter me despistado, mas quem sabe o que espreita sob a superfície? Alguma criatura do pântano poderia tê-la devorado. Ela estará morta de qualquer maneira depois que eu esmagar a nuca de seu crânio.
Justo quando acho que estou chegando perto, passos profundos retumbam lentamente em minha direção, a talvez sessenta metros de distância. Entro em uma poça de água coberta majoritariamente por plantas e me agacho até que apenas minha cabeça esteja exposta, e até mesmo ela coberta pela folhagem. Uma fera apodrecida entra em vista, sua pele toda atravessada por preto, e sua bocarra escancarada e presas gotejando sangue fresco. Ela fede a magia de morte. Ela arqueja, respirando arquejos pesados, pernas tremendo. Fareja ao redor, mas não me vê atrás das folhas.
O guardião do costureiro. Pobre criatura. Quem quer que tenha feito isso com você merece morrer.
Permaneço imóvel, e ela passa retumbando por mim sem sequer um olhar em minha direção.
Dez minutos depois, saio furtivamente da poça, metade coberto por finas vinhas verdes. Sacudo a maioria delas e continuo seguindo o rastro.
Após outros cinco minutos, ouço passos lentos e pesados trinta metros atrás de mim. Viro-me, e ali está o costureiro. Não é a bruxa — é enorme, verde com veias pretas, talvez com quase três metros de altura e três de largura, e tem presas pretas reluzentes. Eu esperava uma mulher, pelo menos, e menor, mas suponho que seja assim que os necromantes se parecem aqui. Ela morrerá da mesma forma.
Invisto. Ela apenas senta-se e observa-me enquanto me aproximo, provavelmente esperando para me surpreender. Preparo o golpe com meu machado conforme me aproximo, e ela continua apenas sentada ali. Seus olhos arregalam-se conforme a lâmina afunda em seu crânio, e ela cai de barriga com um estalo úmido e um guincho. Ela se debate por um segundo ou dois, e então morre.
As palavras de Pavel correm pela minha cabeça novamente. "Não somos feras."
Talvez eles não sejam.
Uma luz branca pisca ao longe, iluminando o horizonte e depois alcançando todo o caminho até o céu. Todos nós observamos enquanto ela rola em nossa direção, cada vez mais brilhante à medida que vem. Então ela nos lava, e tudo o que vejo é branco.
Estou parado em um pântano, sobre uma fera morta. Ela cheira a fresco. Pelas veias pretas em sua pele, devo tê-la invocado. Pela ferida de machado em sua cabeça, devo tê-la matado.
É apenas uma fera. Não o estalajadeiro, nem Pavel, nem o guardião do costureiro, nem sequer o costureiro.
Não consigo mais ver no escuro, mas consigo ver cores, e cheiro normalmente agora. O sol está começando a nascer.
Flexiono meu braço direito. As veias pretas sumiram, e sou forte, tão forte quanto era antes. Respiro fundo e solto um rugido. Ele ecoa por todo o pântano. Pássaros se dispersam e não falam enquanto voam para longe.
Estou em Innistrad, em algum pântano. A bruxa quase me matou.
E a maldição dela sumiu.
O que ela fez comigo?
Quão longe eu tinha ido?
Uma onda avassaladora de náusea me atinge enquanto minha visão torna-se preto e branco novamente. Caio de joelhos, agarro um galho grosso em uma árvore caída com as mãos entrelaçadas de preto e vomito. Quando o esforço de vômito para, metade do alce que comi está no chão à minha frente. Sinto-me um pouco melhor, mas a maldição voltou. E estou muito cansado.
Garruk, o Amaldiçoado pelo Véu | Arte de Eric Deschamps
Farejo o ar. O perfume da bruxa ainda está aqui, misturado com o alce semidigerido, e uma de suas pegadas está bem ali na minha frente.
Continuo seguindo o rastro, agora me apoiando no machado. Vinte minutos de rastreamento me levam a uma estrada. Emerjo do pântano, piscando na aurora que rompe.
A estrada estende-se até onde consigo ver em ambas as direções. A luz ofuscante veio da direita, onde o sol está nascendo agora. Foi o suficiente para me curar, mesmo que apenas por um momento. Não sei o que foi, mas era poderoso.
É a única coisa que já ajudou. Se eu estivesse mais perto, teria me salvado?
Se eu encontrasse a fonte, poderia estar livre. Poderia me empertigar, caminhar ereto, chamar criaturas saudáveis para o meu lado.
Eu poderia parar de caçá-la.
O que eu faria em vez disso? Eu a caço há tanto tempo. O que eu fazia antes?
Olho para a minha esquerda e vejo um galho quebrado. Agacho-me perto dele e farejo, e um rosnado ecoa no meu ventre. É ela.
Posso não ter outra chance de cura. Se eu deixar a luz para trás, terei que matá-la antes que eu me perca novamente.
Se eu seguir a luz, porém, perderei o rastro.
Farejo o chão novamente. Ela ainda está lá, e está fresco o suficiente para seguir.
Viro-me para a esquerda, para longe da aurora ofuscante, e começo a caminhar.
Arte de Brad Rigney
Nissa, Despertadora de Mundos
Por Kelly Digges | 25/06/2014
A elfa Planinauta Nissa Revane levou uma vida difícil. Ela foi exilada de sua tribo, os Joraga, em mais de uma ocasião, e tornar-se uma Planinauta a afastou ainda mais. Viajou para mundos diferentes, buscando entender a natureza da responsabilidade dos elfos para com a natureza, mas sempre retornou ao seu plano natal de Zendikar.
Qualquer paz que ela tenha conseguido encontrar para si mesma chegou ao fim com o despertar dos monstruosos Eldrazi. Esses vastos seres interplanares, devoradores de mundos inteiros, haviam sido aprisionados em Zendikar milênios antes. Desesperada para salvar seu mundo, Nissa quebrou o selo que mantinha os Eldrazi em Zendikar. Sua esperança era que os Eldrazi, libertos de seus confins, partissem pelo Multiverso. Sua ameaça se espalharia, mas Zendikar seria salva.
Não funcionou.
Pelo menos um dos três titãs Eldrazi permanece em Zendikar, ameaçando toda a vida no plano com a aniquilação. Nissa ficou para lutar contra os Eldrazi, mas teme que seja inútil. Para derrotar as monstruosidades que assaltam o plano, toda Zendikar teria que lutar como uma só…
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Os olhos de Nissa se abriram.
Fumaça e cinzas redemoinhavam acima dela enquanto acordava para o caos. Nissa jazia presa de costas e podia sentir a terra rugir abaixo dela. Olhou ao redor, sua mente tentando se agarrar a qualquer coisa familiar. Nissa ouvia gritos, mas estavam distorcidos, como se ouvisse o tumulto ambiente através de um longo túnel com eco. Havia uma pressão que fazia seus ouvidos zumbirem. Piscou os olhos com força. E então, peça por peça, começou a lembrar. Eldrazi haviam enxameado os Joraga. Houvera uma grande explosão de energia. Ulamog retornara.
Então tudo voltou à sua mente em uma inundação nauseante. Sua tribo estava sob ataque. Muitos haviam morrido.
Conforme sua visão clareava, Nissa via os corpos retorcidos de elfos entre as árvores quebradas. Cadáveres de Eldrazi deformados estavam espalhados, os restos fumegantes da progênie aberrante de Ulamog.
Raio de Desastre | Arte de James Paick
Ela precisava se mover.
Moveu-se para levantar e foi puxada de volta ao chão — suas pernas estavam presas. Uma árvore fora partida ao meio e ela fora pega sob um dos galhos. Lutou contra o membro maciço como um animal selvagem pego em uma armadilha até que a dor se manifestou e ela soltou um grito involuntário. Enquanto recuperava o fôlego, uma série de rajadas irregulares e staccatos rasgaram o ar carregado de cinzas vindas de algo muito acima do solo. Nissa levou as mãos à boca e permaneceu tão imóvel quanto uma pedra enquanto um som de tique-taque baixo estalava ao seu redor. Só conseguia ver alguns metros em qualquer direção, mas sabia que a fonte do terrível som estava perto. Suas vocalizações vibravam em seus ossos. Estava caçando.
Tentou extrair mana para invocar alguma forma de ajuda, mas estava exausta. Transplanar estava fora de questão. Tudo o que Nissa conseguiu reunir foi um pequeno brilho de energia de cura para aliviar a dor, mas aquilo foi o suficiente para exaurir suas últimas reservas. Caiu de costas, exausta, contra o solo que se tornara lama com seu próprio sangue. Em desespero, chamou algumas vezes por vultos que fugiam do enxame Eldrazi, alguns humanoides, outros animais, mas ninguém respondeu. O gosto de terra e cinza encheu sua boca enquanto lutava por ar, e sentia sua vida deixá-la a cada batida do coração. Então viu a silhueta maciça de Ulamog crescer como uma nuvem escura sobre as árvores despedaçadas, até bloquear a luz nebulosa do sol de Zendikar. Conforme a sombra passava sobre ela, ouviu o som de mastigação cristalina que ele fazia enquanto devorava a vida de Zendikar, deixando seu rastro característico de destruição. Sentia o fedor acre da coisa e sentiu o estômago convulsionar.
Ulamog, o Vórtice Infinito | Arte de Aleksi Briclot
Lágrimas escorriam por suas bochechas enquanto Nissa Revane olhava para o ar carregado de fumaça e esperava pela morte.
Um rosto humano de olhos selvagens, manchado de terra, olhou para ela. Uma mão calejada agarrou a sua. Nissa estava fraca demais para se mover. O humano gritou por cima do ombro conforme o som de mastigação do titã se aproximava.
"Bahkut! Alira! Aqui."
Ele voltou-se para Nissa. Sua mão calejada tocou o rosto dela, e Nissa sentiu a força vital fluir dele.
"Fique viva. Vamos tirar você daqui."
"Khalni a abençoe", disse Nissa e mergulhou na escuridão.
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Nissa acordou com cheiros e sons que lhe eram estranhos. Suas pernas doíam quando as moveu timidamente e olhou ao redor. Sentia-se fraca, mas percebia um pouco de força retornando.
Ouviu passos se aproximando. A aba da tenda levantou-se e o humano grande e de pele escura que a puxara de sob a árvore entrou.
"Você acordou." Ele sorriu. "Que bom."
"Onde estou?", disse Nissa.
Desconfie de todos. Mesmo que o humano a tivesse salvado, os velhos instintos Joraga permaneciam.
Sentia-se vulnerável, nua sob as peles, e sabia que seu poder total estava longe de retornar.
O humano sentiu o desconforto dela e ergueu ambas as mãos.
"Calma. Você ainda está se curando." Ele pegou as roupas dela em um banquinho próximo e as colocou ao lado dela. Movia-se lenta e deliberadamente enquanto falava. "Você está a um dia de viagem de Jalesh. Meu nome é Hamadi. Você está segura aqui."
"Minha tribo…"
A mente de Nissa recuou diante das memórias. Forçou-se a fazer a pergunta.
"Você viu o que aconteceu com minha tribo?"
Hamadi olhou para ela e disse o que ela já sabia. "Ulamog esteve lá. O vale, a floresta. Os Eldrazi não deixaram nada além de cinzas. Sinto muito, mas pelo que vimos, os Joraga não existem mais."
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Nissa subiu pela mata. Suas pernas ainda pareciam rígidas, mas sua força estava retornando. Era bom se mover e sentir a floresta fluir ao seu redor como uma tapeçaria verdejante mais uma vez. Hamadi caminhava atrás dela e, para um humano, fazia pouco ruído.
"Ali no alto", disse ele.
Nissa olhou através da floresta densa e viu um afloramento de rocha bem acima deles, onde as árvores davam lugar ao granito da montanha.
"Aquele parapeito lá no alto?", disse Nissa. "Você deve realmente ter uma opinião elevada sobre sua cura, druida." Ela ergueu as sobrancelhas para Hamadi, que sorriu.
"Eu tenho uma opinião elevada sobre sua vontade, Shaya", respondeu Hamadi.
"Essa é uma boa maneira de colocar", disse Nissa com um sorriso de soslaio. "Ei. O que Shaya significa?"
Hamadi riu. "Eu lhe conto mais tarde... Shaya."
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Sentaram-se no parapeito com vista para a floresta abaixo e comeram nozes, frutas secas e raiz de chakri. Nissa sentia o vigor da raiz suavizando seus músculos cansados.
"Você tem sido mais que gentil, Hamadi", disse Nissa após um tempo. "Obrigada."
"Estamos em tempos diferentes agora. Foram-se os dias em que nós, zendikari, lutávamos uns contra os outros", disse Hamadi enquanto entregava mais comida a Nissa. "Foi preciso criaturas como os Eldrazi para nos ensinar a viver juntos em paz. Ou eles são bons professores ou somos seres teimosos, hein?" Ele riu.
"Acho que está em todo mundo, esse tribalismo, essa necessidade de isolar e separar." Nissa olhou para a floresta abaixo. "Os Joraga martelaram isso em nós desde o momento em que nascemos. 'Não confie em forasteiros' era algo que eu ouvia desde... sempre. Percorri um longo caminho desde então, Hamadi. Vi demais para ter uma visão tão pequena da vida. A bondade que você me mostrou também desempenhou um papel."
Hamadi sorriu, então pausou por um momento e olhou para um pedaço de fruta seca enquanto o girava nos dedos. "Eu era de Pele Cinzenta, logo nos arredores da grande floresta de Turntimber." Hamadi colocou a fruta na boca.
Refúgio de Pele Cinzenta | Arte de Philip Straub
"Sinto muito, Hamadi", disse Nissa. "Eu sabia do seu povo. Viajei por suas terras."
"Mundo pequeno, Shaya", disse Hamadi. "Como você sabe, meu povo era composto por bons caçadores e guias, mas ganhávamos a vida armazenando mana. Nossa magia era ligada à terra e as árvores nos davam mais do que jamais poderíamos retribuir."
Hamadi recostou-se contra uma pedra e tomou um gole de um odre de água.
"Muitas casas de expedição famintas por mana vinham até nós para negociar. Naquela época, nossas bolsas e estômagos estavam cheios. Nossas tendas eram aquecidas. Pensávamos ter alcançado um cume, o cume, mas era falso. Minha tribo, as casas de expedição, estávamos todos cegos."
Hamadi pousou o odre e continuou.
"Tínhamos ouvido os boatos da devastação dos titãs, mas não acreditamos neles. Como alguém poderia acreditar que era verdade a menos que estivesse de fato lá? Nunca pensamos que os Eldrazi viriam às nossas terras e aniquilariam nosso povo." Hamadi suspirou. "Somos seres de vida curta e visão curta, Shaya. Agora que vi os titãs, sei que existem realidades que existem além das nossas imaginações mais selvagens. Como poderíamos nos preparar para tais coisas?"
Hamadi baixou a cabeça por um breve momento, depois olhou para Nissa.
Mas Nissa não conseguiu encontrar o olhar de Hamadi. Enquanto ouvia a história dele, uma dor crescente brotou em seu corpo e alojou-se em sua garganta. Ela era responsável por tudo aquilo, por toda a perda dele e por toda a devastação de Zendikar. Hamadi puxara ela, uma elfa Joraga, da morte certa. Ele arriscara a própria vida e salvara a dela. E ela era a causa. Memórias sombrias começaram a rastejar na mente de Nissa vindas de todos os piores lugares. Todos os seus fracassos, suas escolhas tolas, seu egoísmo e arrogância, derramaram-se em seu ventre como um peso de chumbo. Viu-se emaranhada na teia de seu passado que estava preenchida pelos corpos de mil inocentes que haviam caído ante os Eldrazi. Ela poderia ter salvo a todos.
"Hamadi", disse ela, enquanto abraçava os joelhos. "Eu sinto tanto."
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Nissa seguiu Hamadi, Bahkut, Alira e um par de gêmeos kor por uma trilha de montanha. Podia sentir Zendikar, inquieta sob seus pés, como se uma grande fera não nascida estivesse se movendo em seu interior. Nissa via grandes pedaços da montanha flutuando e girando sobre a trilha muito à frente.
"Temos que nos encordar. Campos de gravidade", disse a kor chamada Khali. Seu irmão gêmeo Sha'heel parecia nunca falar, preferindo usar sinais manuais sutis ou nada.
Khali e Sha'heel retiraram suas mochilas. Sha'heel retirou cordas, ganchos e correias, entregando-os à irmã enquanto ela equipava Hamadi, Bahkut, Alira e Nissa.
Mestre de Ganchos Kor | Arte de Wayne Reynolds
"Já escalou o céu, Joraga?", disse Khali para Nissa enquanto prendia as correias do arnês de Nissa.
"Odeio estar fora da terra", disse Nissa. "Mas odeio os Eldrazi ainda mais."
"Então apenas pense em estripar aqueles bastardos e você se sairá bem." Khali sorriu enquanto puxava a correia de couro com força e passava uma corda de barbante pelo laço de metal que efetivamente conectava Nissa a Sha'heel. "Sha'heel pegou você agora, Joraga, mas não pense que você está apenas a passeio. Siga a liderança dele o melhor que puder." Khali partiu para cuidar de Hamadi e dos outros dois humanos. Sha'heel olhou por cima do ombro, impassível, depois piscou para Nissa e voltou a dar nós e enrolar corda.
Assim que todos estavam seguros, moveram-se para dentro dos campos de gravidade. Nissa sentia seu corpo dar solavancos e elevar-se, fustigado pelas poderosas ondas de gravidade, até finalmente ficarem suspensos no ar. Nissa sentia-se rígida e desajeitada, como um filhote de gladehart, enquanto observava Khali flutuar e prender uma linha em um rochedo que passava, seus movimentos suaves e relaxados. As linhas de ancoragem do grupo esticaram-se conforme, um por um, todos decolavam, presos à face da rocha pelas cordas Kor delgadas porém fortes.
Khali os conduziu através do labirinto de rochedos flutuantes. Nissa observava o irmão e a irmã se comunicarem com uma série de gestos manuais intrincados conforme avançavam mais fundo no campo de gravidade. Dezenas de rochedos maciços moviam-se em aparente caos enquanto colidiam e rolavam. Khali e Sha'heel conduziam o grupo, escolhendo o caminho através dos perigos com facilidade. Suas cordas eram como extensões mágicas de seus braços, conforme lançavam linhas para capturar faces rochosas que passavam ou balançavam para novos rochedos conforme flutuavam. Nissa vira Kor operarem à distância, mas nunca apreciara sua habilidade e conhecimento do pulso e fluxo de Zendikar até então.
Quando o sol atingiu seu zênite, pararam, suspensos por cordas entre três rochedos que flutuavam sobre um cânion. Alira comentou quão silencioso e pacífico estava um momento antes de um grito ecoar ao redor deles. Nissa girou a cabeça para encontrar sua localização, mas o som refletia na rocha; ela não conseguia se orientar até que Khali assobiou e apontou para baixo. Lá embaixo, Nissa via um Arrasador — uma progênie do titã Ulamog — emergindo de sob a terra diante de um grupo disperso de aventureiros. Nissa não sabia dizer se eram humanos, elfos ou kor, mas não importava. Seus olhos estavam no Eldrazi e ela o queria morto.
Arrasador de Ulamog | Arte de Austin Hsu
Nissa olhou por cima do ombro para ver Sha'heel sacar uma faca e cortar suas linhas de ancoragem com um movimento suave. Nissa ouviu as cordas estourarem enquanto Sha'heel despencava em direção ao chão em queda livre.
"Aquele bastardo é meu, Sha'heel!", gritou Nissa enquanto puxava suas fivelas e se soltava do arnês.
Energia surgiu dentro de Nissa e vinhas contorceram-se da lateral do rochedo em uma explosão de crescimento e cravaram suas raízes profundamente na rocha. Nissa as comandou para si e cavalgou o emaranhado de vinhas até o chão. Abaixo de Nissa, Sha'heel abrira uma kitesail e voava veloz em direção ao Eldrazi, com uma linha de gancho na mão, conforme o Eldrazi emergia em uma nuvem de poeira e pedra.
Dez viajantes estavam espalhados. Alguns haviam sido lançados ao chão quando o Arrasador ergueu um imenso pedaço de terra em direção ao céu. Outros permaneciam atônitos. Alguns fugiam em pânico. Antes que qualquer um pudesse agir, o Arrasador agarrara vários da expedição e os esmagara em sua mão tentacular.
Sha'heel mergulhou baixo e fixou um gancho de ancoragem na carne borrachuda do Arrasador. O Eldrazi tentou atingi-lo enquanto Sha'heel executava uma série de espirais fechadas e liberava uma linha de corda para emaranhá-lo. Então Khali cruzou veloz pelas pernas do Eldrazi e deixou um rastro de outra linha de emaranhamento. O Eldrazi golpeou na direção dos Kor enquanto os guerreiros restantes da expedição disparavam flechas na esperança cega de atingir algo vital.
"Isso não vai segurá-lo, Joraga!", gritou Khali enquanto largava sua kitesail em algum abrigo rochoso e rolava para fora de vista. "Faça alguma coisa!"
Nissa atingiu o chão correndo. Sentiu o poder brotar dentro de si e um sorriso selvagem surgiu em seu rosto. Ela ia destruir aquela aberração da natureza. Ia pagar por tudo. Duas vezes.
Nissa, Despertadora de Mundos | Arte de Peter Mohrbacher
As cordas dos Kor estouraram conforme o Eldrazi se libertava, mas todos os sons foram abafados pelo estrondo que sacudia os ossos da terra vindo à vida. Fogo verde disparou de Nissa para dentro da terra. Sentia seu reservatório de poder inchando e despejou tudo em seu feitiço. Um elemental massivo emergiu em vários nacos enormes, arrancando-se da lateral do cânion em uma chuva de terra. O Eldrazi virou-se, apenas para ser agarrado por uma mão maciça feita de rocha, raízes e terra.
Nissa empurrou cada grama de energia para dentro do elemental e, conforme ele esmagava o Eldrazi, ela esmagava a dor de seu passado junto com ele. Nissa rangeu os dentes. Nunca mais permitiria que tais monstros existissem. Nunca mais seria uma espectadora neste plano — em plano nenhum. Zendikar fluía em seu ser e seu poder focava sua vontade. O Eldrazi lutava e arranhava o colosso de terra, mas o elemental apenas apertava mais seu aperto. Nissa comandou dois outros elementais a emergirem em um trovão de terra. Os colossos imponentes fecharam o cerco sobre o Eldrazi contorcido enquanto este emitia uma rajada de sons staccatos que rasgavam o ar, mas seus sons logo foram cortados conforme os outros dois gigantes golpeavam o Arrasador até torná-lo uma massa contorcida de carne irreconhecível.
Mata Desperta | Arte de Eric Deschamps
Conforme a poeira baixava ao redor deles, Sha'heel olhou para Nissa.
"Uau."
)
Khali, Alira e Bakhut cuidavam dos membros sobreviventes da expedição enquanto Sha'heel inspecionava o cadáver massivo do Arrasador. Hamadi desceu pela longa trilha de vinhas, e Nissa o encontrou embaixo.
"Eu sabia que a terra falava com você", disse Hamadi com uma risada. "Mas nunca pensei que ela rugisse para você!"
"Não posso mentir, Hamadi", disse Nissa, enquanto limpava o suor da testa. "Isso foi muito bom."
"Zendikar quer estar livre dessas coisas. Ela lhe dá seu poder como a nenhum outro que já vi." Hamadi bateu no ombro de Nissa. "Ela escolheu você, Shaya."
"Você vai me contar o que isso significa?", perguntou Nissa.
Hamadi sorriu para ela.
"Significa 'Despertadora de Mundos'."
Véu de Decepção
Por James Wyatt | 02/07/2014
A necromante planinauta Liliana Vess sabe muito bem que todos morrem, mas isso não significa que ela vá deixar que isso aconteça com ela. Ela fez um pacto com quatro demônios de quatro planos diferentes — um contrato, gravado em sua pele, que lhe concedeu poder e juventude eterna, em troca de serviços prestados.
Mas ela só se viu realmente em apuros quando um de seus credores demoníacos a enviou em busca do artefato maligno conhecido como o Véu de Corrente...
Liliana do Véu
À medida que o mundo tomava forma ao seu redor, Liliana Vess tropeçou. O caos incessante das Eternidades Cegas formou-se em árvores viçosas por toda parte, húmus macio sob seus pés, calor sufocante, o cheiro pungente de matéria orgânica em decomposição. Talvez houvesse som — o canto de pássaros assustados com sua chegada, o tropel de um balote ao longe — mas tudo o que ela conseguia ouvir era o véu.
"...nutriu a raiz... forte o suficiente... o receptáculo..."
Vozes diferentes subiam e caíam umas sobre as outras em um sussurro constante que roía as bordas de sua mente. Era sempre pior logo após ela usar magia — no resto do tempo, conseguia ignorá-las ou abafá-las com seus próprios pensamentos.
"Baixem o tom, rapazes", disse ela em voz alta, apoiando-se em uma árvore para se equilibrar.
"... terra sagrada... o primeiro suspiro do vazio..."
"Calem a boca!"
Silêncio. As vozes pararam. Se pássaros estivessem cantando, silenciaram ao som de seu surto.
"Não me falem sobre o vazio", disse ela. "Agora, onde neste mundo amaldiçoado eu estou?"
Liliana Vess | Arte de Aleksi Briclot
Liliana visitara Shandalar apenas duas vezes antes — uma vez quando seu patrono demônio Kothophed a enviara para buscar o Véu de Corrente que ela agora usava. Em vez de trazê-lo de volta para ele como uma boa cadela de caça, usara seu poder para matá-lo. Então o levara para Innistrad e matara Griselbrand, o segundo de seus quatro mestres demoníacos. Não havia como negar seu poder.
O custo, no entanto — disso ela poderia prescindir.
Sua segunda visita fora uma tentativa malfadada de aprender mais sobre os Onakke, a antiga civilização de ogros que estava conectada ao Véu de Corrente de alguma forma que ela ainda não entendia tão bem quanto desejava. Aquela visita terminara com uma multidão de camponeses armados com forcados exigindo sua morte e a deixara com pouco mais informações do que quando começara.
Carecendo de qualquer noção melhor de onde estava em relação à antiga catacumba que buscava, Liliana começou a caminhar. "Vocês vão me levar até lá, não vão?", disse ela. Os sussurros subiram até o limiar de sua audição antes que ela os suprimisse novamente.
"... onde a semente criou raízes..."
Ela caminhou e, logo o suficiente — como esperava — uma espécie de pressão atrás de um olho a guiou para a direita.
"... o receptáculo se aproxima..."
"Cale a boca", disse ela novamente. "Não sou uma peça de cerâmica."
As árvores e samambaias abriram-se o suficiente para deixar passar uma trilha antiga, e ela sentiu-se atraída por ela como se o Véu de Corrente fosse uma corda puxando-a para frente.
"Eu já estive aqui antes", disse para si mesma. A terra batida não mostrava sinal das pegadas de cascos que seu cavalo deve ter deixado antes — é claro que não mostraria, depois de tanto tempo. Mas a cena estava gravada com mais firmeza em sua memória. Alcançara o ponto exato onde algum predador da selva saltara do mato e matara seu cavalo em sua primeira visita.
Mal pensara em matá-lo. Um único feitiço o envolvera em sombras que espremeram a vida dele. Como água refrescante em sua língua. Se soubesse o problema que isso lhe traria, teria feito diferente? O mago da terra Garruk a seguira até a catacumba e a confrontara, proporcionando sua primeira oportunidade de extrair o poder do véu que encontrara. Ela o usara para infectá-lo com sombras, poluindo sua magia da natureza com o toque da morte.
"... a raiz do mal..."
"Mal é uma palavra tão forte", disse ela, silenciando os sussurros novamente.
E então Garruk a caçara através dos mundos, até Innistrad, para forçá-la a suspender a maldição — ou para reivindicar sua vingança. Ela o superara lá, assim como o superara em seu primeiro encontro aqui em Shandalar.
Garruk, Predador Ápice | Arte de Tyler Jacobson
"A morte sempre vence", murmurou ela.
"... o receptáculo da destruição..."
Serafim Guardião
O Véu de Corrente atraiu Liliana pela trilha até que a antiga catacumba surgiu à vista. Ou templo, ou tumba — o que quer que fosse que abrigasse as catacumbas abaixo. Comparada a quando a visitara pela última vez, estava em mau estado. Sua batalha com Garruk a deixara parcialmente reduzida a escombros. Raízes e vinhas rastejavam sobre as pedras caídas.
Uma luz brilhava lá dentro que não estava lá antes, dourada e pura, e Liliana sabia o que aquilo significava. Conseguia praticamente sentir o cheiro do anjo. Com um suspiro, ajustou o véu em seu rosto e subiu os degraus.
Parou na entrada. O anjo pairava no nicho diretamente oposto, onde um dia um esqueleto Onakke estivera com um véu de metal diferente pendurado em suas presas. Exceto que, em vez de um nicho, era a bocarra escancarada de um túnel, entupida de escombros. Liliana se perguntou há quanto tempo o anjo estaria lá, e por quem ou pelo que estava esperando — por Liliana, ou por algum outro intruso neste lugar antigo?
Serafim Guardião | Arte de Paul Bonner
"Pare, profanadora", disse o anjo. "Você não pode ir mais longe."
Puramente por despeito, Liliana deu mais três passos para dentro, certificando-se de que o anjo pudesse ver o véu pendurado em seu rosto.
"Já fiz isso antes e farei de novo", disse ela, cruzando os braços sobre o peito.
"Você!", o anjo arquejou.
"Você me conhece? Ou conhece o que eu visto, mais provavelmente."
"Por favor, pelo bem da sua alma—"
"A única coisa que me importa sobre minha alma é que ela permaneça com meu corpo por um bom e longo tempo."
"Você não sabe o que está em jogo", disse o anjo, um tom súplice entrando na melodia enjoativa de sua voz.
"Já ouvi isso antes. Foram quase as últimas palavras de Kothophed. E as suas também."
Ela pontuou suas palavras com uma onda mortal de poder necromântico puro que arrancou a carne dos ossos do anjo e provocou guinchos e urros de animais morrendo na floresta atrás dela.
Onda de Assassinatos | Arte de Steve Argyle
"Os Onakke...", grasnou o anjo.
Liliana estalou a língua enquanto caminhava para o lado do anjo moribundo. "Anjos. Vocês simplesmente não sabem quando parar. É quase como se gostassem da dor." Agachou-se ao lado do anjo, suas mãos começando a brilhar com luz violeta. "Aqui, isto só vai doer... muito."
"... receptáculo", disse o anjo com esforço óbvio.
Liliana levantou-se e deu um passo atrás. "O que você disse?"
"Você... o receptáculo... segurando-os... libertando-os..."
Os sussurros em sua cabeça tornaram-se um coro estrondoso de vozes abafando o que quer que o anjo dissesse com seu último suspiro. Em todo o seu clamor, apenas três palavras subiram acima do ruído para a clareza em sua mente: "Raiz... Receptáculo... Véu."
Visão Ancestral
Liliana desabou no chão ao lado do anjo morto, segurando a cabeça com as mãos e tentando silenciar os espíritos Onakke que clamavam em sua mente.
"Parem com isso! Calem a boca!" Mas seus protestos nada fizeram para aplacar o tumulto deles.
Então algo pingou em sua perna e as vozes silenciaram, todas de uma vez. Ela abriu os olhos e viu sangue por toda parte, escorrendo de cada linha que Kothophed gravara em sua pele, unindo-se em minúsculos riachos pelos seus braços. Afastou as mãos pegajosas de sangue de seu cabelo e suspirou.
"Isso de novo."
A mesma coisa acontecera depois que matara Kothophed, e novamente após Griselbrand. Extrair poder demais do Véu de Corrente não era apenas doloroso, mas... tão sujo.
Levantou-se lentamente, cada articulação queimando em protesto. Então algo se moveu na borda de sua visão, atraindo seu olhar para a entrada do mausoléu.
A floresta viçosa fora — não desaparecida, mas empurrada para trás, aberta para dar lugar a edifícios orgulhosos que haviam sido montes de escombros desmoronados meros momentos antes. Por um momento de loucura, ela se perguntou se aquilo era de algum modo obra sua, algum efeito colateral bizarro de seu feitiço devastador. Mas aquilo não fazia sentido, percebeu. Pessoas caminhavam entre os edifícios, seguindo com os negócios normais da vida. Não, não pessoas. Ogros. Ogros com chifres enormes e recurvados ou presas projetando-se de suas cabeças, como os esqueletos atrás dela. Os Onakke.
Os sussurros do Véu de Corrente em sua mente foram deslocados pelo burburinho de um mercado lá fora. Conforme a escuridão se assentava sobre a selva, mercadores e artífices empacotavam suas mercadorias e começavam a se dispersar. Liliana via um talento artístico espetacular em cada banca e carroça, o trabalho de artesãos cujo tamanho desajeitado desmentia seu talento incrível. Os edifícios, não mais sufocados pelo crescimento da selva e desgastados pelas eras passadas, eram elegantes e imponentes, decorados com entalhes magistrais mostrando todos os aspectos da vida — caça e guerra, semeadura e colheita, banquetes e o que ela presumia serem ritos religiosos, parto e sexo.
"Eu realmente não precisava ver aquilo", murmurou ela.
Mas algo estava acontecendo. Ogros paravam, olhando ao redor, inclinando as cabeças para ouvir. Então Liliana ouviu também, um rugido baixo ao longe, mas tornando-se mais alto a cada segundo. Do outro lado da praça, viu um ogro correndo com olhos selvagens para fora da selva, gritando palavras que ela não conseguia distinguir enquanto os mais próximos dele largavam suas mercadorias e lançavam-se em uma fuga frenética.
O ogro que corria caiu de cara no chão, mas seu corpo esparramou-se para frente como se derretido, tornando-se uma mancha preta no solo ao redor de um punhado de ossos. E ao redor dele redemoinhava uma nuvem arroxeada que lavou os restos e avançou, estendendo novas gavinhas à sua frente como se estivesse se arrastando pelo chão.
E cada ogro que ela tocava sofria o mesmo destino deliquescente.
Condenação | Arte de Kev Walker
O sol abrira caminho para um campo de estrelas reluzentes, mas mesmo elas pareciam inquietas em meio ao caos do mercado. Uma cascata de meteoros riscou o céu enquanto os Onakke eram totalmente obliterados diante de seus olhos.
Um pássaro grasnou por perto, um corvo, empoleirado em uma saliência de um edifício próximo com vista para o campo de matança. Ele inclinou a cabeça em direção a ela, a primeira criatura ali a notar ou reconhecer sua presença.
"Homem Corvo", disse ela.
Um raio de sombra disparou de sua mão estendida em direção ao corvo — e atingiu apenas os escombros desmoronados onde o edifício estivera um momento antes.
O mercado sumira, a névoa redemoinhante e suas vítimas Onakke, os edifícios imponentes, o burburinho da vida e o horror da morte. Apenas a selva, voltando à vida enquanto a última luz do sol sumia do céu e as criaturas da noite saíam para caçar.
Véu de Corrente
Liliana virou-se para longe da entrada, engolindo seco.
"Parem de mexer com a minha cabeça", disse ela. "Já basta eu ter que ouvir vocês o tempo todo. Não quero ver vocês também."
Deu alguns passos em direção à bocarra do túnel na extremidade distante do salão.
"Não que a cena não tenha sido adorável, vejam bem. Um golpe de morte magistral. Esse é um truque que eu não me importaria de aprender. Apagar uma civilização inteira do plano com um único feitiço? É a minha cara."
As vozes do Véu de Corrente surgiram em sussurros raivosos e ásperos prometendo-lhe uma morte igualmente terrível. Ela as ignorou. Reunindo suas forças e notando com satisfação que o sangue que escorria de sua pele secara, voltou sua atenção para o túnel entupido de escombros que levava às catacumbas onde descobrira o véu pela primeira vez.
"... o receptáculo retorna... arauto... carregando destruição..."
Os sussurros tornaram-se mais altos, embora não menos confusos, enquanto ela baixava a cabeça e passava por cima dos escombros para entrar no túnel. Uma descida tortuosa a levou de volta à câmara abobadada com suas colunas imponentes e bloco de pedra brilhante — um altar, ela supunha — onde o Véu de Corrente repousara.
"Eu o trouxe de volta", disse ela, retirando o véu de seu rosto. O tilintar suave das correntes ecoou no salão. "Acho que não o quero mais."
"... apenas uma criança... inimaginável..." Os sussurros ecoavam também, não mais confinados aos seus pensamentos.
"Acreditem em mim, provei seu poder. É realmente algo especial. Ótimo trabalho."
Moveu-se para ficar ao lado do altar e hesitou, fitando o véu em suas mãos. Pensara que ele fosse a chave para sua liberdade e, de fato, a ajudara a libertar-se de dois de seus quatro mestres demoníacos. Pensara em usar seu poder para matar os outros dois também, para encerrar a barganha que a ligava a eles, corpo e alma.
"Mas parece que matei dois mestres e assumi um milhão de outros", disse ela. "Não sou o receptáculo de vocês."
"... um milhão em um..."
Ela depositou o Véu de Corrente sobre o altar, mas manteve a mão em uma de suas bordas.
Altar do Massacre | Arte de James Paick
"Não sei o que vocês pensaram que eu ia fazer por vocês", disse ela, "mas não faço recados para ninguém. Não mais."
"... o receptáculo da destruição..."
Puxou a mão de volta — e percebeu com surpresa que ainda segurava o véu.
"Não. Não vou jogar esse jogo." Tentou abrir a mão, para deixar a coisa cair, mas seus dedos não obedeciam à sua vontade. Moveu-o de sua mão direita para a esquerda com facilidade, mas sua mão esquerda era igualmente recalcitrante.
"Mãos estúpidas! Não sabem quem manda aqui?"
A luz arroxeada do altar brilhante filtrando-se através do Véu de Corrente criou a impressão fugaz de um rosto inumano por trás do véu.
Girando sobre os calcanhares, refez seus passos até a câmara externa, onde o cadáver esfolado do anjo ainda jazia. Ignorando-o, Liliana voltou-se para um dos gigantescos esqueletos de ogro que montavam guarda silenciosa sobre o lugar.
"Você serve", disse ela, apontando o dedo para ele. Com um estremecimento, ele se pôs em atenção e deu um passo em direção a ela.
"Pegue isto", disse ela, erguendo o véu em direção a ele.
O esqueleto caminhou pesadamente para frente e esticou a mão para o véu. Um instante antes de sua mão óssea fechar-se sobre ele, Liliana o puxou de volta.
"Não!"
Com um poderoso esforço de vontade, ela ergueu o véu novamente, deixando-o repousar em suas palmas abertas, e desviou o olhar dele e de sua criação esquelética. "Pegue-o", disse novamente.
Um calafrio a percorreu quando o esqueleto o arrancou de suas mãos. Ela olhou para suas mãos vazias com descrença.
"Eu", disse ela em voz alta. "Eu mando aqui. Leve-o lá para baixo." Apontou para o túnel aberto, mas o esqueleto não se moveu. Segurava o véu quase com cautela em suas mãos enormes, suas órbitas vazias fixas nela.
"Tire-o de perto de mim", disse ela. Ele continuou imóvel.
"Certo. Você não quer se mover? Então fique aí. Eu vou embora."
Virou-se e caminhou para a entrada, mas os passos estalantes do esqueleto atrás dela a pararam bruscamente. Sem se virar, disse: "Eu disse para ficar aqui. Se não pode seguir minhas ordens, é inútil para mim."
Ergueu uma mão e estalou os dedos, e o esqueleto desabou no chão, roubado da magia que lhe dera o simulacro de vida. Ao cair, porém, ele se lançou para frente e pendurou o véu sobre o braço erguido dela. Ela encarou o véu com horror enquanto ossos tilintavam no chão ao seu redor.
O silêncio desceu sobre o mausoléu enquanto os ossos se assentavam e Liliana via-se sem palavras. Mas então o silêncio quebrou-se — como sempre acontecia — quando as vozes do véu retomaram seus sussurros.
"... choverá... raiz do mal... aniquilação..."
Ela caiu de joelhos e apertou as mãos contra os ouvidos, tentando em vão silenciar as vozes.
"Receptáculo", veio uma voz, clara e alta — apenas a palavra única e pausou como se aguardasse uma resposta. Levou um momento para Liliana perceber que seus ouvidos a haviam ouvido, não apenas sua mente.
Ela olhou para cima e viu outro esqueleto Onakke agigantando-se sobre ela. Mesmo enquanto olhava, porém, ele mudou — tendões envolveram os ossos e os uniram, músculos e órgãos, vasos sanguíneos e finalmente pele vestiram o esqueleto até que um ogro inteiro estava diante dela.
Kurkesh, Ancião Onakke | Arte de Slawomir Maniak
"Receptáculo", disse ele novamente.
Liliana levantou-se de um salto. "Eu não sou seu receptáculo!" Com a última palavra, enviou gavinhas de sombra para envolverem a criatura e espremerem sua vida.
Em vez disso, as gavinhas passaram direto por ele e dissolveram-se em um líquido preto e oleoso que respingou no chão.
"Estamos além do alcance de sua magia", disse o Onakke. "Embora você vista o nosso véu."
Nisso, Liliana percebeu que estava, de fato, vestindo a fina malha de corrente, embora não conseguisse lembrar de tê-la colocado em seu rosto. Puxou-a novamente e a estendeu em direção ao ogro.
"Se é o véu de vocês", disse ela, "por que não o pegam de volta?"
"O véu de decepção não tem utilidade para nós, receptáculo. Ainda não."
"Bem, eu também não o quero. Pegue-o." Mais uma vez tentou largá-lo, mas sua mão não o soltava.
"Você o quer. Suas mãos sabem disso, embora sua mente ainda não consiga ver."
"Ainda", repetiu ela. "O que vocês estão esperando?"
"A raiz ainda não floresceu completamente em você, receptáculo."
"Que raiz?"
"A raiz que foi plantada em você há tantos anos, quando você matou seu irmão."
Outra explosão de sombras irrompeu de Liliana quase sem um pensamento dela, esta mais eficaz — as gavinhas escuras puxavam e rasgavam a substância incorpórea do espírito Onakke. Mas se ele sentiu dor, não deu sinal.
"O que você sabe sobre meu irmão?", gritou ela. "Saia da minha maldita cabeça!"
"Não temos outro lugar para ir, receptáculo."
"Receptáculo. Então estou carregando vocês comigo. O que isso tem a ver com meu irmão?"
A sala encheu-se com um som de fungada e sibilado baixo, e Liliana percebeu após um momento que o espírito estava rindo. Mais gavinhas sombrias brotaram de sua mão para rasgarem sua forma fantasmagórica.
"O que é tão engraçado, maldição?" exigiu ela.
"O véu de decepção não passa de mais uma mentira em uma vida construída sobre mentiras", disse o Onakke. Para satisfação de Liliana, a voz do espírito estava tensa de dor. "Logo, a hora chegará. Você finalmente verá com clareza."
"Ah? E então o quê?"
"Então a raiz florescerá, e a destruição que você carrega dentro de si desabrochará."
Liliana sorriu com desprezo. "É só isso? Isso soa divertido."
"Sim, você gosta de destruir, de brincar com as fronteiras entre a vida e a morte. Tão facilmente você consigna outros ao vazio, e tão alegremente você os chama de volta para servi-la."
Liliana deu de ombros. "Todos morrem."
"Mas não você", sussurrou o espírito, e um calafrio percorreu a espinha de Liliana. "Tudo o que você fez foi para evitar seguir Josu para o vazio. Sua magia, seus esquemas. Seus pactos."
"Já basta", disse ela. "Vocês vivem na minha cabeça, então pensam que me conhecem. Não conhecem. E não sabem o que eu posso fazer."
Três ataques contra o espírito haviam sido suficientes. Ela sabia então o que seria necessário para realmente ferir a coisa, e extraiu todo o poder do Véu de Corrente para fazê-lo. Estendendo a mão em direção ao Onakke, ela uniu os dedos como se estivesse apagando uma vela. O sangue brotou nas linhas gravadas que redemoinhavam em sua pele, e a dor rugiu em cada nervo. E como uma chama de vela apagada, o espírito desapareceu.
O silêncio caiu mais uma vez sobre a tumba imóvel. Liliana caiu de joelhos novamente, embalando seus braços ensanguentados contra o peito. "Que bagunça", sussurrou ela, sua voz suave ecoando na câmara. Então acrescentou: "Está piorando."
Exceto por sua voz, a tumba estava imóvel. Silenciosa. Ela olhou ao redor, meio esperando que o espírito reaparecesse, mas nada se movia exceto a poeira redemoinhando.
"Acabou?", perguntou ao ar. "Nada de sussurros?" Retirou o Véu de Corrente e o girou em suas mãos.
"Talvez agora...", disse ela. Segurou o véu à distância de um braço e o deixou cair no chão — ou tentou deixá-lo cair.
"Maldição", cuspiu ela. Dolorida por todo o corpo, levantou-se com dificuldade e saiu mancando pela porta para a noite da selva, apertando o véu ao seu lado.
"... engolido... aniquilação..." Os sussurros, mal audíveis em sua mente, começaram assim que ela pôs o pé na terra macia.
"Cale a boca", disse ela.
"... Você carrega a semente da destruição..."
"Sim, eu sei." O mundo começou a derreter ao seu redor. Ela não sabia para onde estava indo — apenas para longe de Shandalar, para longe do mausoléu, para longe de sua derrota absoluta.
Enquanto caminhava para as Eternidades Cegas, perguntou-se se havia acolhido dentro de si a única coisa que passara a vida inteira tentando evitar.
O Véu de Corrente | Arte de Volkan Baga
O Bardo e a Bióloga
Por Matt Knicl | 09/07/2014
No plano de Shandalar, na cidade de Lesh, um homem caminhava pelas ruas, divagando sobre horrores malignos. Isso, por si só, mal era digno de nota.
Lesh não era estranha a esse tipo de comportamento. A cidade era um esgoto de corrupção, roubo e assassinato; um reflexo, diziam alguns, de um deus misterioso e maligno que afirmam ter fundado a cidade séculos antes. O deus se fora há muito tempo, mas sua mancha ainda cobria e distorcia Lesh, lar de cultos dedicados aos demônios de Xathrid e agentes dos vampiros de Vaasgoth.
A cidade seria evitada pela maioria, é claro, se não fosse por sua posição em um dos rios comerciais mais vitais de Shandalar. As guildas de mercadores governavam a cidade, juntamente com uma boa parte do submundo local — que ostentava alguns dos criminosos mais legítimos que se poderia encontrar no plano.
Foram justamente esses mercadores que o homem divagante, gritando alto sobre criaturas insidiosas, abordou e agarrou pelas vestes, sacudindo cada um por vez. Ele exigia que ouvissem, como se os idosos e corpulentos vendedores de frutas fossem sua única chance de sobrevivência. Seus apelos de "Vocês têm que me ouvir!" apenas pioravam seu caso, pois os mercadores tomavam isso como um sinal para ignorar sua divagação incessante.
Os mercadores, sempre cautelosos com tal loucura, teriam alertado imediatamente os guardas se não fossem pelas joias polidas e, sem dúvida, caras que o homem divagante usava no pescoço e nos pulsos. Um homem claramente atingido por esse tipo de loucura normalmente não teria angariado tal respeito nem atraído atenção, não em um lugar como Lesh, mas quando ele usava o equivalente a um ano de renda frouxamente no pescoço, os mercadores tendiam a ser um pouco mais compreensivos.
Enquanto os mercadores em suas barracas formulavam seus planos para ganhar o favor do homem e ladrões sacavam suas adagas em becos escuros, uma jovem esbarrou no homem delirante. Ela vestia uma roupa de couro, de estilo antiquado sob a perspectiva de um nobre, mas refinada o suficiente aos olhos de um mendigo.
Jalira, Mestra Polimorfista | Arte de Steve Prescott
"Oh, perdoe-me, senhor", disse ela.
"Você! Você vai me ajudar?" O homem usava um uniforme de soldado remanescente da distante Thune, mas estava sujo e cheirava como se fosse a casa do homem há algum tempo.
"Qual é o problema?", perguntou ela, colocando a mão no ombro dele.
"A colmeia! Minha garota, devemos avisar os outros sobre a colmeia!" Ele nunca percebeu que um de seus colares fora cortado e deslizara para a mão da mulher.
"Eles parecem aterrorizantes!", disse ela, colocando suas mãos sobre as dele, deslizando seus anéis para fora dos dedos. "Acredito que já ouvi falar deles."
"Já? Por favor — ninguém acredita em mim." Ele encarou intensamente os olhos da mulher.
Outro homem parou para dirigir-se à dupla. Tinha cabelos pretos longos e usava um tapa-olho de couro sobre o olho direito. Suas roupas de couro marrom eram detalhadas com a quitina de um inseto albino, semelhante às partes insetoides que compunham a lira que ele carregava nas costas.
Yisan, o Bardo Errante | Arte de Chase Stone
"Eu acredito em você, senhor", disse o homem, "pois lutei e matei muitas dessas criaturas em meu tempo."
A mulher ficou vermelha e lançou um olhar fulminante enquanto a nova concorrência avançava sobre seu alvo.
"Ah, é mesmo?", disse ela, entre dentes cerrados.
"Ora, derrubei quase sete antes do café da manhã", disse ele com um sorriso. "Ouvirei seu conto, alma gentil."
"Oh, abençoados sejam ambos", disse o homem confuso.
"Senhor, parece que você deixou cair uma moeda de ouro", disse o recém-chegado. Ele se abaixou e colheu uma moeda do chão — cobre, pintado de dourado — e a colocou na mão do homem enquanto simultaneamente removia um dos braceletes de ouro no pulso dele. No mesmo movimento fluido, ele deslizou para o lado para bater os bolsos do homem.
"Oh, entendo, obrigado." O homem desgrenhado encarou a moeda.
Por cima do ombro, o recém-chegado lançou um largo sorriso para a mulher, que cerrou um punho e colocou a outra mão no ombro do homem. O recém-chegado, imitando seus movimentos, colocou a mão no outro ombro do homem. O adivinho, entretanto, estava tão encantado pela moeda que não percebeu que seu público estava em disputa.
Os mercadores, cautelosos com os dois despojando o homem de seus tesouros e ansiosos para terem sua própria vez de pilhar os pertences do adivinho, finalmente agiram para alertar os guardas. Se não iam ter sua parte, por que alguém mais deveria ter?
"Jalira e Yisan, afastem-se desse homem!" Uma voz ecoou pelo mercado.
Jalira, a mulher, e Yisan, o homem com o tapa-olho, olharam um para o outro e suspiraram. O comandante dos guardas cavalgou em direção a eles em um cavalo com outros seis soldados, dois dos quais já tinham arcos armados apontados para Jalira e Yisan.
"Jalira, coloque as mãos nos bolsos. Yisan, se você sequer fizer menção de pegar essa lira, terei uma flecha atravessada em você antes que toque sua primeira nota."
Jalira colocou as mãos nos bolsos e Yisan cruzou os braços.
"Ora, olá, Dexros", disse Yisan, movendo as mãos enquanto falava, sabendo que isso causaria apreensão nos guardas enquanto rastreavam seus movimentos. "Qual parece ser o problema?"
"Temos relatos de que vocês estão roubando no mercado."
O rosto de Jalira passou de irritação para compaixão enquanto ela erguia as sobrancelhas e dava um passo à frente.
"Por favor, senhor. Estamos apenas ajudando esta pobre alma roubando suas mercadorias, para que ele não acabe com uma adaga nas costas. Não estamos fazendo nada além de nosso dever cívico", disse ela.
O homem confuso pareceu intrigado, então percebeu que seu ouro sumira. Não pareceu se importar, virando-se para caminhar até o mercador sorridente mais próximo, continuando a esbravejar sobre a perdição iminente nas mãos ou garras da colmeia. Jalira e Yisan reviraram os olhos com a perda de seu alvo.
"Vocês estão presos", disse Dexros, comandante dos guardas. "Venham conosco ou emitiremos um mandado de execução contra vocês."
"Já tenho um mandado de execução", corrigiu Jalira. Yisan olhou para ela, consternado.
"Por que você sempre torna as coisas difíceis?"
Yisan voltou-se para os guardas.
"Não iremos com vocês."
Dexros fez menção de sinalizar seus homens para atacar, mas justo quando abriu a boca para ordenar aos arqueiros que disparassem, Yisan cantarolou uma melodia imperceptível aos ouvidos humanos. Yisan preferia tocar sua lira, mas qualquer instrumento servia, incluindo sua voz.
Cinco cavalos em pânico empinaram, derrubando três cavaleiros no chão, e dispararam pelo mercado. Dois dos guardas mal conseguiram se segurar em seus corcéis. Os guardas no chão fizeram menção de se levantar e investir contra a dupla, mas Jalira acenou com as mãos, soprando fumaça azul das pontas dos dedos. Os guardas transformaram-se em minúsculos sapos azuis, suas roupas vazias caindo ao redor deles. Yisan lançou a Jalira um olhar de desaprovação.
"As moscas estavam me incomodando", respondeu Jalira, sorrindo.
Gracejo do Polimorfista | Arte de Craig J Spearling
Yisan revirou os olhos. Estava prestes a retrucar, a repreendê-la por interromper sua melodia, mas o som de mais guardas vindo pela rua fez suas orelhas ficarem em riste.
"Acho, Jalira, que é melhor partirmos."
)
Após escaparem da cidade, Jalira e Yisan acamparam ao lado de um pequeno rio na beira da estrada, a alguns quilômetros da cidade. Jalira bebia água de um odre enquanto Yisan estava parado sobre uma rocha, lendo um livro enquanto cantarolava.
"Você tem que continuar com essa melodia?", perguntou Jalira. "Da última vez que viajamos juntos, fiquei com essa música presa na cabeça por semanas."
Yisan não respondeu, em vez disso cantarolou cada vez mais alto, até estar cantando, o que levou Jalira a pegar uma pedra e atirá-la no bardo. Yisan, sem nunca tirar os olhos do livro, saltou da rocha e caminhou até Jalira.
"Parece que o homem que roubamos era um batedor thuniano chamado Hastric", disse Yisan enquanto balançava o livro na frente de Jalira. "Isto pode ser a solução para nossos problemas financeiros."
Ela arrancou o livro da mão dele. "Que problemas financeiros?", perguntou ela, soando extremamente pouco convincente para Yisan, que sorriu de soslaio enquanto Jalira abria o livro para ler.
"Prata!", exclamou ela.
"Não, é fractius", corrigiu Yisan, saltando do chão de volta para seu rochedo. "Sua mente gananciosa trai seus olhos."
Em sua lira, Tolumnus, ele dedilhou a mesma melodia que vinha cantarolando. Jalira ignorou a correção dele e continuou a ler sobre os fractius. Ela ouvira boatos de criaturas estranhas que evoluíam rapidamente, mas sua pesquisa em fisiologia parara quando ela ficou sem dinheiro para alimentar suas cobaias — e a si mesma.
Hastric assumira a tarefa de estudar os fractius, mas os escritos nas mãos de Jalira sugeriam que ele começara lentamente a perder o juízo, ao que parecia, devido ao que inicialmente chamara de "zumbido". Escritos posteriores, que se tornaram mais erráticos e paranoicos, referiam-se a ele como um "thrum". A última entrada rabiscada simplesmente referia-se a ele como "o chamado".
Mas contidos nas notas estavam relatos de mercadores e viajantes mortos nas partes mais profundas da rede dos fractius, mercadores e viajantes que deixaram para trás pilhas de ouro e outras joias esperando para serem saqueadas.
As bochechas de Jalira avermelharam e seu pulso acelerou enquanto lia. Não apenas poderia estudar criaturas únicas e incríveis que o mundo civilizado não vira, percebeu Jalira, como poderia fazer uma pequena fortuna também.
"Bem, vamos então", disse Jalira, atirando o diário no bardo que ainda tocava. Ela ainda sorria, embora seu sorriso fosse tão falso quanto sempre.
Yisan apanhou o livro com a mão que dedilhava, cortando a música.
"Isso nos levará para as profundezas das Terras Selvagens de Kalônia, bem além das ruínas Onakke", disse Yisan. "Então é melhor nos movermos."
Yisan prendeu Tolumnus nas costas e cantarolou a mesma melodia familiar enquanto a dupla seguia pela estrada.
)
A jornada foi mais difícil que o esperado. Logo de início, Yisan e Jalira foram acossados por uma matilha de feras corrompidas por magias sombrias, criaturas que só recentemente começaram a assolar a terra. Jalira transformou algumas em coelhos enquanto Yisan tentava acalmá-las. Sua música não afetava as feras, então ele encantou centopeias maciças debaixo da terra. Durante a luta que se seguiu, a dupla escapou.
Após uma noite passada com uma companhia de mineração particularmente e matematicamente orientada, Yisan e Jalira desviaram-se da costa, gastando tempo extra através da Floresta de Kalônia para evitar as patrulhas aéreas de Talrand. Nenhum dos dois contava o invocador de drakes como amigo por uma variedade de razões diferentes: entre os dois, Talrand fora enganado em vinte barras de ouro, a escritura de um farol e um casamento.
Yisan passara algum tempo nas Terras Selvagens de Eloren, que eram certamente densas e perigosas, mas não abrigavam tantas feras aterrorizantes ou selvagens quanto as de Kalônia. Embora isso o cansasse e irritasse Jalira, Yisan tocava uma melodia leve em sua lira enquanto caminhavam pela parte mais profunda da Floresta de Kalônia, mantendo as hidras e caninos-longos afastados, mas fazendo seus dedos sangrarem de tanto tocar por horas a fio.
Eventualmente, com não pouco esforço, a dupla encontrou-se perto da área marcada no diário. Não era o local exato, mas o som distinto de estalidos e zumbidos que o diário de Hastric descrevia confirmou a proximidade dos fractius.
O zumbido ecoava em seus ouvidos. Yisan e Jalira abriram caminho pelo matagal, encontrando-se diante de um penhasco com uma caverna. Acima, ao longo do penhasco e dentro da caverna, pendiam os fractius, semelhantes aos esboços enlouquecidos de Hastric. Hastric chamava-os de "ninhada menor", embora ainda tivessem tamanho próximo ao de Jalira e Yisan. Eles deslizavam e pendiam das rochas acima deles com suas caudas e um único braço de garras no centro do que Jalira discerniu serem seus peitos.
Colmeia de Fractius | Arte de Igor Kieryluk
"Acho que minha música não funcionará aqui", sussurrou Yisan, olhando na direção de Jalira, sem tirar a atenção da colmeia.
Jalira irritou-se por ele ter falado, mas sabia que o que ele dissera era verdade. Havia pelo menos uma dúzia de fractius, e seus cliques bizarros certamente abafariam as canções de Yisan.
A dupla, assegurada apenas pelo fato de Hastric ter sobrevivido ali por meses, caminhou lentamente para frente. Conforme se esgueiravam para dentro da caverna, vários fractius deslizaram pelas rochas para barrar o caminho. Os fractius não se moviam rápido ou agressivamente. Suas cabeças nem sequer pareciam seguir a dupla. No entanto, cada fractius diante deles ergueu seu braço laminado em sua direção.
"Tenho um plano", sussurrou Jalira, tentando esconder o sorriso enquanto estudava as criaturas.
"Não gosto disso", respondeu Yisan.
Fumaça azul começou a fluir das pontas dos dedos de Jalira.
)
Tudo o que sabem é a colmeia. O zumbido do ninho. A vontade do senhor da colmeia.
Eles lutam contra isso, Jalira e Yisan, suas mentes correndo para controlar seus novos corpos de fractius. São aqueles do tipo menor. Conseguem ouvir os pensamentos de todos na colmeia — um zumbido constante. Conforme se movem pela colmeia, perdem-se, sucumbindo à vontade do senhor da colmeia. Perdem um ao outro, esquecendo quem são. Capturam seus pensamentos, brevemente, e correm de volta um para o outro, tentando manter-se fora do impulso constante que busca transformá-los em zangões.
A colmeia é tudo e tudo é a colmeia.
)
Após alguns minutos (horas? dias?), Yisan e Jalira começaram a recuperar seus sentidos. O controle de seu próprio livre-arbítrio retornou lentamente. Passaram pelos "primos" bípedes e humanoides que Hastric descrevera, que se pareciam com as raças sencientes de Shandalar mas moviam-se como insetos, os estalidos intensos e altos.
A dupla, ainda movendo-se como fractius, chegou a uma câmara maior com nichos ladeando os caminhos, nos quais estranhas biomassas eram cuidadas por fractius menores. Um fractius cavalgava o vento com asas ali, espiralando do topo da câmara até o fundo. Ao passar por outro fractius, aquele fractius também brotou asas e momentaneamente pairou. Jalira e Yisan sentiram as asas brotarem de suas costas, sentiram as novas partes formarem-se em seus corpos e souberam como voar como se o tivessem feito por toda a vida. À medida que se moviam em direção ao centro da colmeia, entretanto, perdiam as asas. Às vezes brotavam lâminas extras ou começavam a secretar veneno, que desaparecia conforme se moviam para o interior.
Após algum tempo que não conseguiam calcular, chegaram à câmara central, o centro da atividade da colmeia. O senhor da colmeia de fractius agigantava-se na câmara, uma criatura maciça vinte vezes o tamanho deles. Hastric mencionara que ele era a fonte dos fractius, seu soberano. Os ossos dos mortos — e, mais importante, seu ouro e pertences — jaziam nas bordas da câmara, restos dos banquetes do senhor da colmeia.
Senhor da Colmeia de Fractius | Arte de Aleksi Briclot
Jalira e Yisan entraram na câmara, mas suas formas de fractius começaram a vacilar. O senhor da colmeia de algum modo comandou que abandonassem sua fachada. Ele parecia observá-los, suas lâminas movendo-se quase independentemente do corpo sinuoso e oscilante. Nus, Jalira e Yisan mantiveram os olhos no senhor da colmeia, aterrorizados, mas trocavam olhares entre si em busca de qualquer indicação do que deveriam fazer em seguida.
Sem saber o que fazer, ambos curvaram-se diante do senhor da colmeia. O fractius maciço não teve reação. Sem palavras, ambos recuaram em direção às paredes da câmara e cautelosamente pegaram os restos de roupas que jaziam ali. Vestiram-se e, cuidadosos para não esquecer o propósito de sua jornada, procuraram lentamente tantas moedas e tesouros quanto eles e suas roupas pilhadas podiam carregar, o tempo todo mantendo os olhos no senhor da colmeia.
Os fractius nada fizeram para permitir que Jalira e Yisan passassem, embora tampouco tenham tentado ativamente impedir a saída de Yisan e Jalira. Os dois, não mais invisíveis em seu disfarce, evitaram os primos, cujas cabeças humanas viravam para olhá-los ao passarem. Eventualmente, após esperarem cuidadosamente que os fractius se movessem de seu caminho, conseguiram sair do covil, voltando para a mata, para onde haviam deixado suas roupas.
"Precisamos chegar a Martyne", disse Jalira, quebrando o silêncio. "Grendub será capaz de financiar a maior parte disto."
"Acho que vou ficar aqui por um tempo", respondeu Yisan, com a cabeça voltada para a caverna. Pegou Tolumnus. "Quero estudá-los um pouco mais. A música deles é fascinante. Você pode ficar com todo o tesouro."
Jalira não fez contato visual com ele.
"É, claro, acho que sim", disse ela. "Se você confia em mim. Ficarei com o ouro que conseguirmos, mas só ficarei em Martyne por alguns dias."
Yisan pareceu não ouvi-la. Ele encarava a caverna, dedilhando sua harpa para imitar os sons dos fractius.
"Isso serve. Alcanço você daqui a pouco." Ele sentou-se para observar os fractius pendurados nas rochas e dedilhou sua lira de carapaça.
Jalira quis dizer mais alguma coisa, mas o orgulho a forçou a partir sem uma palavra. Não ia desperdiçar seu tempo com tolices. Já sabia o que precisava saber sobre fractius. Partiu para Martyne e esperou lembrar da música irritante que Yisan sempre deixava presa em sua cabeça.
O Caçador não pode ter Piedade
Por Jennifer Clarke Wilkes | 16/07/2014
Vronos, Inquisidor de Elite, firmou sua besta com detalhes em prata e mirou. O virote abençoado disparou e mergulhou com um borrifo de sangue no coração da criatura amaldiçoada. A mulher caiu sem um som. Ao seu lado, uma criança mal velha o suficiente para caminhar chorava. Ela rastejou até o peito imóvel de sua mãe, cujo sangue vital ainda se misturava à lama da aldeia.
Inquisidor de Elite | Arte de Jana Schirmer & Johannes Voss
Os pecadores encontrariam o Sono Abençoado ali, seu mal tão morto quanto sua carne amaldiçoada. Vronos deu suas ordens: alguns para empilhar os cadáveres na praça da aldeia, outros para trazer madeira e óleo para a purificação final.
As crianças, no entanto, ainda poderiam ser salvas. Enquanto os outros seguiam com suas tarefas sombrias, ele liderou um grupo para recolher os bebês chorosos e os órfãos de olhos escuros dos lados frios de seus pais, e os jovens de bochechas encovadas e ressentidos das cabanas escurecidas onde se amontoavam.
Ele escolheu os rostos mais gentis, as vozes mais calmantes entre seus endurecidos matadores de monstros. Não havia muitos. Mas, gradualmente, trouxeram todas as crianças trêmulas. Os caçadores cansados as guiaram para o acampamento próximo, enquanto o céu tornava-se lívido com o fogo consagrado.
Lamentável que inocentes devam sofrer na limpeza. Vronos sentiu uma pontada, lembrando-se de uma noite há muito tempo. O brilho do fogo gorduroso, o fedor de madeira carbonizada, piche e sangue fervendo. Os gritos borbulhantes de sua irmã.
Os homens e mulheres de capuz tentaram lhe dizer que o fogo purificaria a alma dela. Que ela encontraria o Sono Abençoado. Ele não entendera. Não sabia por que dormir parecia doer tanto.
Eles o levaram para a creche dentro da catedral onde as crianças dos limpos eram criadas pela Ordem da Garça de Prata. Os atendentes gentis e de manto cuidaram dele, mantiveram-no alimentado e vestido, ensinaram-no a trabalhar nos jardins, a cuidar dos animais e a orar. Fizeram tudo isso com quase nenhuma palavra, embora a Irmã Alina cantarolasse músicas de seu lar em Stensia enquanto realizava suas tarefas.
À medida que envelhecia, ele aprendeu a disciplina dos cátaros. Treinou com todas as armas dos puros. Estudou todo o conhecimento sobre os monstros que assombravam seu mundo. Ensinou a si mesmo a ser duro.
)
Embora a aldeia estivesse limpa, o campo ainda era perigoso. Vronos estabeleceu vigílias para a noite mas, pelo bem de seus seguidores exaustos, manteve a duração de cada turno e o número de vigias o menor possível. Ele, é claro, insistiu na primeira vigília.
Quando chegou sua vez de descansar, adormeceu quase antes de atingir seu saco de dormir.
Vronos raramente sonhava. Mas naquela noite seu sono foi perturbado por visões terríveis, misturadas com gritos bestiais e clamores humanos. Um peso terrível esmagava seu peito. Ele se debateu e gemeu, então acordou para uma labareda de dor. À luz bruxuleante da fogueira, Vronos olhou para os olhos de uma fera enlouquecida pelo sangue que rosnava e arranhava seu gibão de couro. Ela avançou contra seu rosto e arrancou uma tira de carne da testa e bochecha de Vronos. Sangue espumava ao redor de seu focinho.
Vronos rugiu e lançou-se para cima, derrubando o monstro de cima de si. Seu próprio sangue afogava sua visão. Conseguia ouvi-lo arranhando o chão, preparando outro ataque, mas Vronos encontrou o punho de sua espada e a ergueu em um arco como uma foice. A lâmina estremeceu ao cortar a carne, e o peso do bruto caiu fora.
Predador Impiedoso | Arte de Michael C. Hayes
Saltou de pé, limpando seu rosto ensanguentado, e tentou entender a situação. Ao seu redor estavam espalhados os corpos de suas tropas leais, tão dilacerados e retalhados quanto seus sacos de dormir rasgados. Alguns gemiam fracamente de gargantas cortadas. Na luz vil da lua, Vronos viu as formas curvadas e eriçadas das criaturas-lobo arranhando os poucos de seus soldados que ainda lutavam.
Olhou para baixo e viu uma menina deitada imóvel a seus pés. Um sulco profundo rasgara seu ombro, penetrando fundo em seu peito. Sua boca estava manchada de sangue, e um fiapo de carne ainda pendia de seus dentes avermelhados.
Vronos olhou para cima novamente. As formas selvagens eram menores que homens, seus movimentos desajeitados. O enjoo subiu à sua garganta.
Não havia inocentes.
Vronos gritou sem palavras e investiu contra a fera mais próxima. Cravou sua lâmina em seu pescoço, sem parar para certificar-se de que estava morta antes de passar para a próxima. Outro corte e outro corpo caiu fora enquanto ele tropeçava pelo campo de cadáveres. Uivos irromperam dos monstros, misturando-se horrivelmente aos gritos dos soldados moribundos. A matilha voltou-se para ele. Estava sozinho em meio aos lobisomens-crianças rosnantes.
Um saltou para sua garganta.
Depois outro.
E outro.
O mundo escureceu.
)
Santuário Arcano | Arte de Anthony Francisco
Vronos estava em pé em um vasto espaço. Abaixo dele havia metal frio; ao seu redor, vidro. Acima dele redemoinhavam nuvens de chumbo, mas uma luz fria brilhava através de uma abertura circular em seu interior. Formava um poço em cujo centro ele se encontrava, imerso em entonações murmuradas — ou oração.
Vronos olhou ao redor. Viu formas cintilantes derivando em uma grande bacia. Seres flutuavam em meio a elas, alguns irreconhecíveis, bem como formas mais humanas. Metal brilhava em todos os seus rostos.
Uma figura azul e calva moveu-se para sua visão, olhando para ele sem expressão. O rosto da criatura era atemporal, marcado com delicada filigrana prateada. Não tinha pescoço. Metal retorcido de algum modo mantinha sua cabeça no lugar.
Escrutinou-o silenciosamente por alguns segundos e então voltou-se para os outros observadores. Falou em uma voz monótona. "Este espécime é imperfeito. Talvez tenha sido danificado na transição. Deveria ser expurgado do estudo."
"Limpo, você quer dizer?" Vronos empertigou-se tão orgulhosamente quanto pôde. Olhou ao redor para os rostos frios. "Por qual padrão você julga minha pureza?"
O azul voltou seu olhar para ele e piscou, uma vez, duas vezes. "Este é novo em suas habilidades. Este pode ter valor. Não vimos um assim desde a Cavaleira."
Arte de Chippy
Nunca antes ouvira falar de Planinautas: pessoas como ele que de algum modo aprenderam a viajar entre os mundos díspares que compunham a existência. Mas esses estranhos estudiosos, que se chamavam de Jurados do Éter, haviam estudado tal viagem por muito tempo. Postulavam que o metal misterioso que chamavam de eterium poderia vincular os seres vivos mais fortemente ao mar de energia em que todos os planos flutuavam. Os seres azuis, vedalken, chegavam a substituir grandes quantidades de sua carne pela substância. Mas o segredo de viajar através do Éter, como ele podia, estava além deles.
Eles se debruçavam sobre seus Vinte e Três Textos, tão sagrados quanto qualquer hinário de Avacyn, em busca da chave que abriria o mistério. Mas nada era mais valioso para eles do que a chance de observar um verdadeiro Planinauta em um ambiente controlado. Vronos aceitou, mas exigiu um preço alto em troca: conhecimento. Descobriu parte do folclore dentro dos Textos sagrados, aprendeu a natureza básica do metal estranho e de seu criador há muito perdido, e praticou as artes arcanas desses magos metalúrgicos. Reparou seu rosto devastado com uma incrustação de eterium e fabricou uma máscara filigranada do mesmo material.
Entre essas lições, ele transplanava. Lançava-se nos espaços enlouquecedores entre os mundos e aprendia a encontrar os caminhos sutis que o levavam a novos lugares. Passeou por margens banhadas por fogo líquido e esteve em picos tão altos que quase tocavam as estrelas. Caminhou pelas ruas de uma cidade infinita. Viu criaturas bizarras que podiam mudar seus corpos em uma variedade de formas. Maravilhou-se com o sopro flamejante de dragões, perseguiu feras alienígenas através de florestas-mundos, tocou gemas que pareciam vivas.
E relatava aos estudiosos ávidos — mas não tudo o que aprendia. Vronos coletava pepitas de conhecimento e as guardava atrás de sua máscara, junto com sua desfiguração. Com metal e saber, aprimorou sua habilidade de transplanar e descobriu como rastrear outros como ele pelos rastros tênues que deixavam no Éter.
)
Retornou como um penitente, após muitos meses de estudo e viagem. Ajoelhou-se no salão dos cátaros na grande catedral de Avacyn e ofereceu suas orações ao anjo. Não esperava menos que a excomunhão, até mesmo a morte, por suas transgressões.
Mas Avacyn inclinou seu rosto glorioso em direção à sua forma curvada, amor infinito transbordando em seus olhos. Beijou a testa de seu servo mutilado e proferiu palavras de perdão e compreensão. Pela primeira vez desde aquela noite terrível, e pela última vez, o coração de Vronos contorceu-se com emoção pura.
Ele se comprometeu novamente ao seu serviço. Implorou que ela o incumbisse das missões mais perigosas. Jurou nunca deixar que a fraqueza o impedisse de fazer o que era necessário, não importa quão duro. E ela derramou uma lágrima perfeita em sua bochecha cicatrizada, e assentiu.
)
Máscara de Avacyn | Arte de James Paick
Seus cátaros todos usavam máscaras. O rosto filigranado de Vronos era sempre o primeiro entre os temidos caçadores. Os monstros e os ignorantes chamavam-no de o Esgrimista Cinzento, embora ele tivesse tanto em comum com o esporte elegante quanto eles. Mas ele correspondia à sua reputação, cravando sua fina lâmina no coração de cada inimigo caído do bem.
Entendeu finalmente por que sua irmã tivera que morrer. Não perdoou, mas viu a necessidade. Combater o mal significava endurecer o coração. O caçador não pode ter piedade.
Certa manhã, um anjo guerreiro apareceu. Estendeu suas asas brilhantes sobre Vronos e ergueu ao alto sua espada.
"Carrego uma mensagem para o mascarado de minha Senhora, uma tarefa que apenas seu servo mais devotado pode realizar. Será a missão mais perigosa de todas. Conclua este encargo, diz ela, e ele será considerado livre de suas dívidas."
)
Avacyn, Anjo da Esperança | Arte de Jason Chan
Avacyn flutuava nos altos tetos de sua catedral como um novo sol nos céus. Vronos não conseguia olhar diretamente para sua glória.
Curvou-se profundamente. "Que serviço desejas de mim, Senhora? Estou sob seu comando."
"Meu leal caçador. Gostaria que não fosse necessário chamá-lo para tal tarefa, mas apenas você, entre todos os meus seguidores, possui as habilidades para realizá-la."
"Fiz um juramento a vós, até a morte. Ainda o mantenho. Dizei vosso encargo."
A tristeza sombreou as palavras do anjo. "A força que me libertou também desencadeou um mal maior no mundo. Muitos demônios foram aprisionados no Cofre Infernal. Tivesse eu a escolha, preferiria ter permanecido lá dentro do que escapar e libertá-los. A sombria que causou a abertura da prisão lançou uma praga sobre este mundo, mas eu e meus Esquadrões, e nossos fiéis, a limparemos.
"Pior é a maldição que ela infligiu a um que, como você, pode viajar entre os mundos. Se não for tratada, esta aflição o transformará em um demônio além de qualquer outro — e além do meu alcance.
"Mas você, meu escolhido, pode persegui-lo como meus outros servos não podem. Você deve encontrar este homem, Garruk, e trazê-lo à minha catedral. Duvido que sua condição lhe permita entender sua situação. Se não vier de boa vontade, você deve prendê-lo. Precisará de toda a sua astúcia e aprendizado para superar seu poder amaldiçoado.
"Faça isso por mim, e pelos muitos mundos em jogo, e eu o considerarei livre de seu juramento para comigo."
Vronos levantou-se e forçou seus olhos a contemplá-la. "Minha Senhora, mesmo que eu não tivesse jurado, faria tudo em meu poder para servi-la. Assumirei esta tarefa, não para ser livre, mas para realizar seu trabalho purificador onde quer que precise ser feito."
Ao redor de Avacyn surgiu uma hoste de anjos, cantando em tons semelhantes a sinos. As abóbadas escuras da catedral irromperam em dia brilhante, lançando uma longa sombra de bordas afiadas diante de Vronos enquanto ele marchava pelas portas entalhadas.
)
Arte de Brad Rigney
O homem, Garruk, mal lembrava algo humano. Era uma enorme massa de músculos, fétido de suor e sangue antigo. Seu rosto estava oculto por um elmo enferrujado e marcado, e um emaranhado grosseiro de cabelos. O fedor da corrupção sujava o ar enquanto ele erguia seu imenso machado.
"Pare, amaldiçoado!" gritou Vronos. "Você foi maculado por um mal que não compreende. Abaixe sua arma e deixe-me levá-lo aos curandeiros de Avacyn."
O bruto rugiu como uma fera e brandiu seu machado. Vronos recuou, não ousando aparar a lâmina pesada com seu florete delgado. Ergueu sua besta e murmurou um encanto de submissão sobre o virote enquanto este voava.
Garruk simplesmente o esmagou no ar. Com um movimento de arremesso, trouxe à existência um urso rosnante. Ele saltou sobre Vronos, que rapidamente fabricou uma estrela-da-manhã reluzente e golpeou a fera. Arquejando pelo esforço, ele invocou um monstro de metal próprio.
À medida que mais criaturas selvagens se juntavam à briga, Vronos respondia com servos de eterium. Mas Garruk crescia ainda mais e tornava-se mais feroz na fúria total de sua magia da natureza maculada. Vronos podia fabricar novos defensores com os restos dos que caíam, mas sabia que estava perdendo terreno nesta disputa.
Vronos ergueu as mãos em um encantamento desesperado. Mas antes que pudesse terminar as palavras, a cabeça do machado enterrou-se em seu ombro. Garruk simplesmente arremessara sua arma. Vronos caiu de joelhos, apertando o ferimento sangrento. Revelar-se-ia mortal sem atenção imediata.
Fugiu para o vazio, com seu inimigo uivando pragas atrás dele. Chegou à boca de uma caverna onde outrora se abrigara. Seu leito de galhos, folhas e grama ainda estava imperturbado. Vronos rastejou para o espaço acolhedor e tateou em busca do estoque de ervas. Suas mãos fecharam-se sobre as folhas secas, e ele murmurou uma breve oração de agradecimento. Mastigou-as rapidamente para formar um emplastro e o esfregou no ferimento. Caiu de costas e deixou a escuridão levá-lo.
)
Vronos dependera demais dos clérigos da Inquisição, viu ele então. Assim que recuperasse um pouco de força, precisaria retornar ao santuário; o ferimento estava além de sua capacidade de reparar completamente. E passaria algum tempo aprendendo os princípios básicos da cura em campo de batalha antes de enfrentar o monstruoso Garruk novamente.
Mas, por hora, precisava descansar e permitir que seu corpo se recuperasse. E isso exigia nutrição. Água não seria difícil de conseguir, mas ele mal podia dispor de energia sequer para procurar algumas bagas.
Derivava para dentro e fora da consciência, a dor em seu peito latejando no ritmo de seu batimento cardíaco.
O sol se pôs. O ar tornou-se azul. As notas de um tordo caíram em cascata através do crepúsculo silencioso. E então, uma corça entrou na clareira a menos de trinta metros dali.
Ela estava salpicada pela luz das estrelas. Seus olhos eram escuros e líquidos, refletindo a lua enquanto erguia a cabeça para farejar a brisa. Era bela e inocente. Mas o caçador não pode ter piedade. Vronos ergueu lentamente sua besta.
A corça assustou-se, as orelhas girando. O virote voou certeiro. Afundou em seu pescoço, justo quando ela se virava para fugir. Alguns passos pesados, e ela caiu. A luz esvaiu-se de seus olhos, tornando-se vidro preto.
Vronos arrastou-se, gemendo, em direção à criatura da floresta caída. Horas pareceram passar antes que ele alcançasse o cadáver da corça. Ofereceu outra oração de agradecimento e puxou o virote de sua carne ainda quente.
Um estalo súbito de galhos, um passo pesado. Vronos olhou para cima e viu a lua ser ocultada por um vulto corpulento. Duas luzes roxas e sombrias brilhavam no elmo do monstro. Ele ergueu seu machado. "Eu disse que você não podia se esconder de mim."
O machado silvou ao descer. Vronos baixou a cabeça.
O caçador não pode ter piedade.
A Vingança de Ajani
Por Tom LaPille | 23/07/2014
Ajani Juba d'Ouro é um membro da raça felina dos leoninos e um Planinauta sábio para além de sua idade.
Ajani viajou recentemente para o plano de Theros em busca de sua amiga Elspeth Tirel. Juntos, eles jornada ao reino divino de Nyx em uma missão para matar o recém-ascendido deus-sátiro Xenagos. Eles tiveram sucesso — mas a um preço. O deus do sol, Heliod, abateu Elspeth com sua própria arma, não tendo mais necessidade ou desejo por uma matadora de deuses mortal.
Ajani viu Heliod matar Elspeth. Ele carregou o corpo de sua amiga de volta ao mundo mortal para que sua alma pudesse viajar para o Mundo Inferior.
Ela se foi. Ele permanece. Mais uma vez, ele enfrenta aquela pergunta difícil e delicada feita por todos que perderam alguém querido:
E agora?
)
Ajani acordou, seu corpo inteiro era uma dor surda e constante. Sua visão embaçada resolveu-se em sombras iluminadas por lanternas tremeluzindo em um teto branco inclinado. Estava em uma tenda, à noite, e sua lona agitava-se levemente contra a brisa.
Ele apertou seu único olho e farejou. O cheiro de alguma mistura de ervas agarrava-se ao seu pelo, sem dúvida graças a um curandeiro que cuidara dele enquanto dormia. Testou um tornozelo, uma perna, um pulso, um cotovelo, uma garra. Tudo parecia estar funcionando.
Ergueu a cabeça e olhou ao redor da tenda. Fora deitado em um catre que ocupava o centro da tenda. O manto de Elspeth jazia sobre uma mesa de madeira próxima, dobrado ordenadamente ao lado de um frasco de cerâmica. Estava branco puro novamente, todo o sangue lavado, como se nada tivesse acontecido. Ao lado disso, empoleirado em um banquinho dobrável, estava um humano idoso de cabelos brancos cujo pescoço e parte inferior do rosto estavam cobertos por cicatrizes onduladas de queimadura.
"Lanathos", rosnou Ajani.
O velho rústico sorriu. "Saudações, colega visitante."
Ajani manteve seu rosto impassível.
O sorriso do homem desapareceu. "Você retornou sozinho."
O rosto de Ajani caiu.
O homem inclinou-se para frente. "Suas viagens foram tão perturbadoras? O curandeiro disse que você estaria bem pela manhã."
Ajani sentou-se no catre, agigantando-se sobre o pequeno humano idoso. Sua cabeça latejava. "Isso não é sobre mim", rosnou ele.
Lanathos ergueu uma única sobrancelha. "Não?"
"A história de Elspeth terminou", disse Ajani. "Você não quer ouvir como ela acaba?"
O velho coçou o queixo. "Eu quero, mas talvez não agora."
Ajani enrolou uma de suas tranças entre os dedos. "Estamos ambos aqui, não estamos?"
"Minha memória é excelente", disse o homem. "Lembrarei de qualquer coisa que você disser pelo tempo que eu viver. Você tem certeza de que sabe como deseja que eu me lembre dela?"
Os ombros do leonino caíram. "Eu não havia pensado nisso."
O homem olhou para o manto dobrado, depois de volta para Ajani. "Se é uma história que você deseja contar, talvez deva começar pela sua própria."
Ajani levantou-se do catre, moveu um banquinho vazio para mais perto do homenzinho e sentou-se, pairando sobre ele. "Por que eu faria isso?"
"Seu pelo tem um tom diferente de tudo o que vi entre estes leoninos. Seu sotaque é diferente também. Você me disse que veio de além das montanhas, e mais além. Há um conto aí, tenho certeza. Mas você parou de contá-lo." Ele olhou para Ajani e o encarou no rosto, desafiador. Entre dois leoninos, aquilo seria um desafio flagrante, e ele já deveria saber disso. "Você veio a mim procurando sua amiga. Você a seguiu em sua missão para matar um deus. Ela pereceu na tentativa, presumo, e é por isso que você retornou sozinho. A história dela acabou agora. Quando começará a sua?"
A boca de Ajani abriu-se. "Ela precisava da minha ajuda!"
O homem olhou novamente para o manto lavado. "Você ajudou?"
Ajani ficou tenso, suas garras estendendo-se. Sua visão escureceu nas bordas. "Brimaz pode tolerá-lo, contador de histórias, mas ele não ficaria satisfeito em ouvir que você perturbou um de seus convidados."
O homem levantou-se. "Então permitirei que você descanse", disse ele, "mas não antes de entregar-lhe uma mensagem em nome de sua majestade". Ele quase cuspiu o honorífico, pois Brimaz não era conhecido por sua formalidade. "As setessanas estão aqui, celebrando uma vitória compartilhada por humanos e leoninos. Antusa não sabe que você retornou, e suspeitará do que aconteceu se o descobrir sozinho. Isso diminuiria o ânimo na celebração, o que sua majestade considera inaceitável. Você deve permanecer nesta tenda esta noite." Ele ergueu uma mão, indicando a mesa. "O frasco contém um trago que o fará dormir pelo resto da noite e atenuará a dor amanhã. Sua majestade o verá no ginásio amanhã após o desjejum."
Apelar para a autoridade de Brimaz fora um erro. Ajani dobrou as orelhas para trás, permitiu que suas garras se retraíssem e pegou o frasco na mesa. "Você serve como mensageiro dele agora?"
"Ele confia em mim. Você terá que fazer o mesmo se quiser que o mundo se lembre de sua amiga." Ele sorriu, embora em seu rosto rústico Ajani não conseguisse dizer se era o tipo genuíno de sorriso humano ou não. "Descanse bem, colega visitante", disse o homem, e então virou-se e partiu.
Ajani farejou o frasco. Era aromático, terroso e apenas um pouco desagradável. Bebeu o conteúdo, deitou-se novamente no catre e fechou seu único olho.
Acordou com a luz do sol filtrando-se pelo teto da tenda e o cheiro de carne grelhada e pão. Este último vinha de uma bandeja de comida que alguém deixara na mesa ao lado do manto dobrado. Ele se levantou do catre e puxou um banquinho para a mesa, com seu estômago roncando. A carne estava bem temperada e o pão estava quente, embora estivesse um pouco mais aerado do que ele preferia.
Um momento após terminar de comer, uma jovem leonina de pelo cinza entrou na tenda. Era Seza, que o encontrara nas terras selvagens quando ele chegara pela primeira vez.
"Bom dia", disse Seza alegremente.
Garra-veloz de Oreskos | Arte de James Ryman
"Para você também", disse Ajani com um sorriso. Ele acenou com a cabeça em direção à bandeja vazia. "Obrigado pelo desjejum."
Ela assentiu em resposta, sorrindo, mas então seu rosto endureceu. "Você deve encontrar Brimaz em seus exercícios matinais. Eu o levarei até ele."
"Você e Lanathos têm sido bastante formais." Ajani ergueu a sobrancelha.
Ela olhou ao redor furtivamente, então falou novamente, agora muito mais baixo. "Brimaz o considera um grande amigo, mas sua situação aqui piorou. Podemos ter derrotado o exército nascido na nyx com as setessanas, mas isso nos custou muitos soldados, e nem todos concordaram com a decisão do rei de marchar com os humanos. A facção separatista de Pyxathor era pequena antes, mas ele tem estado bastante ativo desde que retornamos a Tethmos, e sua influência cresceu. Esta é a primeira vez que Brimaz verá você desde a batalha. Os homens de Pyxathor estarão vigiando."
Ajani suavizou. "Entendo."
"Algumas de minhas amigas começaram a ouvi-lo, e tenho tentado trazê-las de volta. Mas precisarei tratá-lo com certa frieza assim que estivermos fora da tenda, ou suspeitarão de sua influência." Ela olhou para o chão. "Sinto muito."
"Todos abrimos mão de coisas por nossas causas, não é?" Ele sorriu.
Ela assentiu. "Vamos?"
Deixaram a tenda, e ela o conduziu pela cidade em crescimento por alguns minutos, levando-o a uma parede de cortinas. Ela afastou uma, e gesticulou para Ajani entrar.
O ginásio em si era um tanto menos grandioso do que Ajani esperava. Os humanos aqui frequentemente construíam enormes complexos de edifícios isolados para se exercitarem. Este ginásio era pouco mais que uma área cercada por cortinas que continha carroças de pesos e suportes de armas, mas ainda era mais do que ele seria capaz de encontrar em Naya. E no centro de tudo estava Brimaz, em pé, alto e forte, com seu peito marcado por cicatrizes nu na luz da manhã. Não estava usando sua coroa, mas seu porte e o espaço que os outros leoninos lhe davam tornavam sua posição clara.
Brimaz, Rei de Oreskos | Arte de Peter Mohrbacher
Seza parou logo dentro das cortinas. "Brimaz o aguarda."
"Obrigado", disse Ajani, e então entrou. Pyxathor estava parado na borda do ginásio com os braços cruzados. Havia muitos outros leoninos presentes, muitos da guarda pessoal de Brimaz, e seus olhares alternavam entre Pyxathor e o rei.
Ajani caminhou até o centro, e Brimaz assentiu para ele. "Queria agradecer por seu conselho", disse ele. "Meu exército lutou ao lado das setessanas, e derrotamos o assalto dos nascidos na nyx. Ontem à noite, celebramos a vitória juntos, humanos e leoninos, compartilhando taças. Creio que fizemos algum progresso em direção a uma paz duradoura." A voz do rei tinha um tom novo e ríspido, e o discurso claramente não era para o benefício de Ajani.
Ajani assentiu com seu melhor aceno de sabedoria. "Isso é excelente."
Brimaz o encarou. "Você sempre me diz que é de longe."
Ajani considerou seus arredores. Cada outro leonino os observava agora. Aquele não era o lugar para explicar, mesmo que ele achasse que pudesse.
"Isso é verdade", disse ele.
Ajani esperou por outra pergunta, mas nenhuma veio. Brimaz virou-se para longe de Ajani e em direção a um suporte de armas próximo, no qual repousavam um escudo de madeira e várias armas de madeira. Ele passou o braço pela correia de couro do escudo, pegou uma espada com a outra mão e voltou-se para Ajani. "Você pode escolher suas armas."
A cauda de Ajani ficou tensa. "Vamos lutar?"
"Seu pelo é branco. Seu sotaque não é o nosso. Você não entendeu os contos da Campeã. Você não é um de nós, e escolhe não me contar mais nada. Mas você é claramente um guerreiro capaz, e estou precisando de um parceiro de treino." Brimaz continuou encarando Ajani, desafiador.
"Não quero lutar com ninguém", disse Ajani, desviando seu olho.
"Depois de todo o trabalho que tive para mandar fazer estas?" Brimaz estendeu uma garra em direção a um machado de uma mão e uma espada, ambos com lâminas de madeira, no mesmo suporte — cada um feito quase exatamente no estilo das armas que Ajani se acostumara a carregar aqui.
Ajani suspirou. Caminhou até o suporte e pesou o machado em sua mão direita e a espada na esquerda. Ambos eram bem construídos, com bom peso e equilíbrio. Por um momento, ele sentiu falta de seu machado de lâmina dupla mais familiar. Tal arma o teria marcado ainda mais como um forasteiro, mas talvez aquilo não fosse tão importante naquele momento.
O rei o conduziu a um espaço aberto próximo. "São suficientes?", perguntou ele, apoiando seu escudo redondo em seu joelho esquerdo estendido.
Ajani assentiu.
E com isso, o rei investiu contra ele. Ajani recuou, mas o leonino mais alto era rápido demais. Ajani golpeou com sua espada para a direita de Brimaz, mas o escudo do rei moveu-se para um bloqueio com a velocidade do relâmpago. Ajani esquivou-se para a direita e brandiu seu machado, mas Brimaz estava perto demais, e apenas o cabo fez contato com o ombro do rei antes que Brimaz pressionasse a ponta de sua espada de madeira contra a garganta de Ajani.
Ajani congelou. Brimaz assentiu e recuou. "De novo."
Brimaz foi mais uma vez o primeiro a se mover. Ajani baixou seu braço esquerdo para estocar sua espada abaixo do escudo de Brimaz. No último momento, Brimaz esquivou-se para a esquerda — o lado cego de Ajani. A estocada de Ajani apenas perfurou o ar. Ele ergueu o machado na mão direita para bloquear um ataque vindo de seu lado cego justo quando algo tocou o lado direito de seu pescoço.
O rosto de Ajani traiu sua frustração enquanto retornava ao ponto de partida. "Não ensinam o corte envolvente de onde você vem?", perguntou o rei. "Talvez as espadas não tenham gume duplo?"
Ajani rosnou e posicionou-se. O rosto de Brimaz permaneceu impassível.
Brimaz veio diretamente em sua direção uma terceira vez, mas Ajani acompanhou sua abordagem. Brimaz ergueu seu escudo para atrapalhar o machado de Ajani em seu lado direito, e Ajani ouviu mas não pôde ver suas espadas se chocando em seu lado esquerdo. O escudo do rei passou rente ao lado direito da cabeça de Ajani, empurrando seu machado ainda mais para fora de posição. A mão do escudo do rei agarrou uma das tranças de Ajani e deu um puxão para baixo. Ajani cambaleou, e então Brimaz o derrubou.
Ajani tombou no chão. Quando se recuperou, Brimaz apontava uma espada para sua garganta.
Brimaz colocou sua espada entre o braço direito e o corpo. "Você tinha razão", disse o rei, estendendo a mão para ajudar Ajani a se levantar. "Você não quer lutar, e esse é o seu problema."
Ajani agarrou a mão. "Isso é tão errado?"
Brimaz puxou Ajani para um pouco mais perto do que a distância de fala conforme ele se levantava. "Tudo aqui é uma luta, Ajani. Lutei para fazer meus soldados marcharem ao lado de humanos. Lutei para manter a ordem quando nosso exército misto enfrentou os nascidos na nyx. Agora estamos de volta, e devo lutar contra aqueles do meu próprio povo que preferem viver isolados de qualquer outra civilização. Estou feliz em tê-lo aqui, mas preciso de você lutando por algo, ou sua presença apenas torna minhas lutas mais difíceis."
"O que posso fazer?"
Brimaz virou-se um pouco, e olhou para os outros leoninos. Eles estavam observando e ouvindo, embora agora apenas de relance com os cantos dos olhos e ouvidos. "Eles não confiam em você porque não sabem quem você é", sussurrou Brimaz. "Eles precisarão de respostas antes que você possa ser verdadeiramente um de nós." Ele voltou-se para encarar Ajani novamente. "Estarei ocupado por enquanto com as setessanas. Da próxima vez que conversarmos, perguntarei qual você deseja que seja seu papel em minha cidade."
Ajani assentiu. "Sim, vossa majestade."
Brimaz sorriu, finalmente, embora apenas um pouco. "Você sabe que não faço questão de títulos entre meus amigos."
"Então ainda somos amigos?"
O vestígio de um sorriso desapareceu, e Brimaz lançou um olhar para Pyxathor. "Em particular, seremos sempre amigos, mas muito pouco da minha vida é particular hoje em dia."
"Eu entendo."
"Foi bom vê-lo."
Ajani assentiu. Brimaz virou-se para guardar suas armas. Ajani colocou as suas em outro suporte próximo e deixou o ginásio.
Ele vagou pelas ruas durante grande parte da manhã, um fantasma de pelo branco entre os leoninos mais escuros de Tethmos. Ele sempre poderia partir, é claro. Havia muitos planos, cada um cheio de visões e sons, alguns dos quais até tinham outros leoninos que poderiam acolhê-lo. Mas Brimaz tinha razão. Ele não quisera lutar, embora houvesse muitas coisas aqui pelas quais lutar. O direito de Oreskos de existir em paz era uma, embora aquilo fosse mais propriamente a luta de Brimaz. Elspeth desejara punir Xenagos por como sua ambição afetara tantos neste plano, mas aquilo não fora verdadeiramente a luta de Ajani também. Talvez ele precisasse encontrar a sua própria.
Então Ajani lembrou-se da visão de Heliod abatendo Elspeth, e sorriu um sorriso selvagem e sem alegria. Retornou à sua tenda, recolheu seus pertences, prendeu o manto de Elspeth em seus ombros e partiu na estrada para Meletis.
Enquanto viajava, ponderava sobre a natureza dos deuses. Xenagos demonstrara que alguém poderia se tornar um deus em Theros se conseguisse convencer criaturas sencientes suficientes a acreditar. Estava claro que Heliod não era, estritamente falando, uma força para o bem, e no entanto, em algum momento, pessoas suficientes escolheram acreditar nele. O que aconteceria se pessoas suficientes escolhessem parar?
A jornada foi longa, e foi um alívio ver as muralhas e edifícios reluzentes de Meletis ao longe enquanto a noite começava a cair. Aproximou-se dos portões com as orelhas abaixadas e um porte contrito, esperando parecer dócil. As posturas dos dois guardas passaram de alerta para alarmadas e para curiosas ao vê-lo se aproximar, e Ajani conteve um sorriso satisfeito.
"Busco o templo de Heliod", disse ele calmamente aos guardas quando chegou ao portão. Um deles pareceu desconfiado, mas o outro ficou feliz em lhe fornecer direções, embora ainda falasse com Ajani como se falasse com um gato de estimação. Após vinte minutos navegando pelas ruas meletianas e os olhares de seus ocupantes humanos, Ajani encontrou-se na base da escadaria do lado de fora do maior templo de Heliod em toda Theros.
Templo da Iluminação | Arte de Svetlin Velinov
Ajani subiu os degraus e entrou no edifício. Por dentro, era civilizado e perfeito, cada ângulo entre as paredes de mármore imaculado construído com precisão, e uma luz brilhante mas sem fonte definida impregnava tudo em seu interior. Ajani era o único leonino lá dentro; os outros suplicantes, talvez oitenta no total, eram todos humanos, e suas formas orgânicas e arredondadas pareciam fora de lugar na perfeição angular do templo.
Muitos deles o encaravam abertamente — a maioria o seu corpo, mas mais do que alguns as suas armas. Ele olhou para a esquerda; havia um suporte dourado reluzente, no qual algumas espadas e adagas haviam sido colocadas. Ajani abaixou as orelhas e colocou seu machado e sua espada na parte inferior do suporte.
Grande parte da atenção diminuiu, e uma jovem vestida como atendente do templo aproximou-se. "Não costumamos ter convidados leoninos", disse ela suavemente, sua pele e cabelos escuros brilhando na luz sobrenatural.
Ele olhou para ela severamente e igualou o volume da voz. "Passei a acreditar que apenas Heliod pode responder às perguntas que tenho."
O rosto dela suavizou. "A devoção aos deuses é rara entre sua espécie."
"Tive experiências únicas com eles", disse ele, mantendo o rosto calmo.
"Como assim?"
Ajani empertigou-se um pouco. "Eu estava presente", disse ele, sua voz alta o suficiente para ecoar um pouco, "quando o deus deste templo assassinou uma mulher que era tanto sua Campeã quanto minha amiga".
A atendente ficou rígida. Os homens e mulheres perto deles pararam e começaram a ouvir. "Como você sabe que foi Heliod quem fez isso?"
Ajani ergueu uma sobrancelha. Elevou sua voz ainda mais, mas manteve o tom suave. "Seu halo dourado é bastante característico."
Os olhos da atendente arregalaram-se por apenas um momento antes de ela se recompor. "E que pergunta você tem para o nosso patrono divino?"
"Esta minha amiga", disse Ajani, passando por ela e projetando a voz alto o suficiente para que todos ouvissem, "aceitou tornar-se campeã de Heliod. Para cumprir suas ordens, realizar grandes feitos em seu nome, manter seguros aqueles de nós que só podem orar aos deuses por segurança". Ele queria cuspir a última parte, mas em vez disso manteve a voz estável, fazendo o papel de uma ingenuidade provinciana. "Presumi que ela seria recompensada por este serviço. Que seria agradecida, louvada, que receberia uma recompensa apropriada por preencher a posição que aceitara. E, em vez disso, ela foi abatida. O que devo pensar de um deus que trata uma suplicante leal com tal ingratidão?"
Nem todos estavam olhando agora, mas todos estavam ouvindo.
Um jovem aproximou-se, provavelmente não mais velho que quatorze anos, com olhos azuis que desvaneciam em um branco leitoso conforme ele caminhava. "O que deve um deus pensar de uma campeã que excederia sua posição?" Sua voz ecoava com uma profundidade não natural, e os homens e mulheres ao redor todos caíram de joelhos.
Ajani nem sequer inclinou a cabeça.
"Você veio semear a discórdia no templo de Heliod." A voz ressonante do garoto sacudiu os ossos de Ajani.
"Vim fazer uma pergunta a Heliod."
O oráculo estreitou os olhos. "Este lugar é para aqueles que respeitam o poder divino de Heliod. Se você não se conta entre os fiéis, deve partir."
Ajani deu um passo à frente, sentindo-se mais audaz agora. "Acredito que Heliod é um deus. Acredito que o povo deste templo o venera por seu poder divino. Acredito que não faz tanto tempo assim que todos os seus sacerdotes foram expulsos deste mesmo templo, forçados a fugir para salvar suas vidas. E acredito que ele assassinou sua Campeã a sangue frio."
"Ela matou um dos seus também." A voz era ensurdecedora, e Ajani desviou os ouvidos dela. "Os mortais 'deste lugar' têm um lugar, e ela não consentiu em permanecer nele."
O fogo queimou no ventre de Ajani. "Vi o que acontece com os mortais que permanecem nos lugares que os deuses lhes atribuem. Quando os sacerdotes deste templo foram espalhados aos ventos, encontrei um deles, Stelanos, na estrada. Era um miserável cego e quebrado. Ele até recusou que enterrássemos os mortos ao seu redor. 'Deixe-nos como um aviso para os outros', disse ele. 'Os deuses nos abandonaram'. Bebeu beladona para acabar com seu sofrimento."
O garoto cruzou os braços. "Se você continuar a semear a dissidência no templo de Heliod, terá o mesmo fim que Elspeth teve."
Ajani sorriu um sorriso sem alegria. "Então não semearei a dissidência aqui."
O garoto franziu a testa e gesticulou em direção à entrada do templo.
Ajani virou-se, recuperou seu machado do suporte na porta e caminhou para fora no crepúsculo. Os humanos todos o seguiram com o olhar enquanto ele caminhava, mas agora, talvez, nem todos os olhares fossem hostis.
Fez seu caminho até a borda do complexo do templo, e descobriu que alguns dos suplicantes o seguiam. Na borda do complexo, ele virou-se para encará-los.
"Você viu Heliod matar sua própria campeã?", perguntou uma jovem mulher. "Seu sacerdote, deixado cego e quebrado para morrer na estrada?", disse um homem mais velho.
Ele caminhou com eles, e contou-lhes o que vira em Nyx, do ato vingativo de assassinato de Heliod, da verdadeira natureza dos deuses.
"Eles são como uma grande chama", disse ele, reunindo uma pequena multidão ao parar em uma das praças públicas de Meletis. "Antes da faísca, não há nada. Após a faísca, há luz e calor e destruição. Mas sem aqueles que acreditam, não há nada para o fogo queimar. E se Heliod trata sua Campeã e seus oráculos como pouco mais que lenha para sua chama, que esperança temos aqueles de nós que não podem ouvir sua voz?"
Uma mulher de olhar cético deu um passo à frente. "Não se pode apagar um deus como uma fogueira de cozinha."
Ajani a observou com severa gentileza. "Um fogo sem nada para consumir deve morrer, não importa o quão grande tenha se tornado."
Ela coçou o queixo e desapareceu de volta na multidão. Outro deu um passo à frente, um homem mais velho desta vez. "Você parece pensar que nós criamos os deuses. O que deveríamos criar em vez disso?"
"Criem algo para vocês mesmos!", Ajani quase rugiu. "Uma família, um lar, uma vida. Amigos e conhecidos e felicidade. Algo que seja de vocês, não algo muito acima de vocês que pode destruir tudo o que prezam por um capricho."
Houve muitos acenos de cabeça conforme a multidão começava a se dispersar, muitos de seus membros conversando entre si. Falavam de suas ambições, suas famílias, as coisas que amavam e como poderiam melhorar suas vidas para si mesmos. Um falou de quão frequentemente os deuses o haviam ajudado. Raramente, disse ele, e não muito. Aqueles ao seu redor assentiram.
Uma mulher permaneceu com ele. "Você disse algumas coisas interessantes, e eu gostaria de ouvir mais delas. Você tem um lugar para ficar?"
Ajani sorriu e balançou a cabeça. "Eu não tinha antes."
Permaneceu na cidade por vários dias, compartilhando sua mensagem, subsistindo apenas da bondade e simpatia daqueles que achavam suas palavras inspiradoras. Frequentemente dormia nas casas daqueles que o ouviam. Duas vezes dormiu nas ruas, mas a cada vez o manto de Elspeth foi suficiente para mantê-lo aquecido durante a noite. Encontrou muitos que rejeitaram suas ideias, mas mais alguns a cada dia pareciam simpáticos e, talvez, esses poucos retornassem às suas vidas com novas ideias sobre as forças divinas que vivem nos céus de Theros.
Filósofo Viajante | Arte de James Ryman
Em seu nono dia na cidade, enquanto comia o desjejum comprado de um vendedor de rua com moedas dadas por seu anfitrião da noite anterior, ouviu uma humana falando alto em uma esquina próxima. "Os deuses nos traíram", bradava ela, "e no entanto nós os alimentamos com nossa crença!". Ela tinha uma pequena multidão reunida e, embora não fosse tão eloquente nem tão gentil quanto Ajani fora, estava claro que a mensagem começara a se espalhar. Era hora de voltar para casa.
A jornada de Meletis de volta a Oreskos foi longa, mas Ajani não se importou. Precisava de tempo para construir um monumento digno para Elspeth. Uma história que se espalharia por toda parte. Uma história sobre uma mortal digna, comum no nascimento mas grande em feitos. Uma história que inspiraria leoninos e humanos a olharem para as estrelas e dizerem não, não emprestarei minha força a esses deuses caprichosos e insensíveis. Uma história que algum dia abalaria os próprios alicerces de Nyx.
Logo, Ajani pensou consigo mesmo ao ver o sol se pondo sobre os portões de Tethmos, nenhum leonino pensaria na história da Campeã da mesma forma. Levaria tempo para esta versão da história alcançar os humanos, mas as histórias tinham um jeito de se espalhar.
Dois leoninos armados guardavam os portões. Um deles deu um passo à frente quando Ajani se aproximou. "Você é Ajani, sim?"
Ajani assentiu.
"Brimaz deseja falar com você. Eu o levarei até ele."
O guarda o conduziu pela cidade que escurecia até o salão do rei. Um grande fogo ardia em seu centro, cercado por muitos leoninos e um único ancião rústico. Quando Ajani entrou no salão, Brimaz levantou-se. Todos os olhos voltaram-se para Ajani, e a conversa cessou. Apenas o estalar do fogo emitia som.
Brimaz falou. "É bom vê-lo novamente."
Ajani deu um passo à frente. "Estou pronto para contar minha história."
Ajani Inabalável | Arte de Chris Rahn
Brimaz sorriu e sentou-se. O círculo ao redor do fogo expandiu-se, deixando um espaço para Ajani.
Ele parou logo fora do espaço. "Muitos de vocês se perguntaram de onde eu vim", disse ele, e sua voz ecoou dentro do salão. "Viajei muito para estar aqui, e nenhum de vocês provavelmente ouviu falar do meu lar. Eu era jovem quando parti e viajei muito desde então. Sou mais verdadeiramente de lugar nenhum."
Pyxathor, sentado ali perto, bufou; alguns outros pareceram céticos. Lanathos coçou o tecido cicatricial em seu queixo, ponderando.
"Conheci a senhora Elspeth há vários anos durante minhas viagens, e foi a ela que segui até aqui. Ela era uma grande guerreira. Assumiu o manto de Heliod, tornando-se sua Campeã. Xenagos, recém-ascendido à divindade, a prejudicou grandemente, e ela resolveu puni-lo por sua húbris. Escolhi ir com ela. Ela nos conduziu a Nyx, a terra dos deuses. Completou uma provação para Érebo, que nos permitiu passar ao domínio de Xenagos. Ela o abateu com uma lança abençoada com o poder de Heliod. E Heliod, enfurecido com a morte de um deus, mesmo um que usurpou a ordem natural para alcançar a divindade, matou a mulher que era sua Campeã a sangue frio enquanto eu assistia."
Muitos dos leoninos ao redor do círculo murmuraram entre si.
"Muitos de nós não pensam muito dos deuses, mas eles são muito reais. No entanto, são nossas próprias criações. Passaram a existir quando os primeiros fiéis afirmaram sua existência e, desde então, só cresceram em poder." Ajani examinou o círculo de leoninos, que agora estava absorto em atenção. "Tassa vive nas profundezas, alheia aos barcos e vidas e famílias que seus bichos de estimação destroem. Érebo guarda zelosamente aqueles que se encontram em seu reino e permite que apenas arremedos patéticos deles escapem de seu aperto. Heliod é uma criatura infantil e mesquinha e, no entanto, ele é o que fizemos para liderar o panteão de nossas próprias criações. Podemos fazer melhor.
"Passei vários dias em Meletis espalhando esta mensagem. Que os deuses são nossas criações, um fogo criado por uma faísca de crença. Que o poder deles de consumir é sustentado apenas por nossas crenças. Que um fogo, privado de lenha, deve apagar-se."
Ajani sorriu levemente. "Como vocês observaram, não sou verdadeiramente deste lugar, mas compartilho sua frustração com os deuses e lutarei contra eles à minha maneira. Se não desejarem que eu fique, partirei, mas continuarei a espalhar minha mensagem para as outras pólis."
E novamente, o único som no salão era o estalar do fogo. O manto de Elspeth agitava-se atrás de Ajani na leve brisa.
"Bem-vindo ao lar", disse Brimaz. Lanathos sorriu de orelha a orelha. Vários leoninos assentiram, Pyxathor entre eles.
Ajani entrou no círculo e sentou-se.
Dando Passagem!
Por Kelly Digges | 30/07/2014
Fizz colocou a cabeça para fora da trincheira por tempo suficiente para ver que não queria mais fazer aquilo. Saqueadores orcs lutavam em formação cerrada, e centenas de seus companheiros goblins avançavam à frente deles como tropas de choque e caça-minas. Bombas explodiam, flechas voavam e goblins caíam às dúzias.
Alguns deles provavelmente sobreviveriam à batalha. Acontecia, às vezes.
E eles voltariam com apetite.
É aí que Fizz entrava.
Caldeirão Borbulhante | Arte de Eric Deschamps
Fizz não era, por natureza, uma lutadora. Lá na toca, enquanto seus trinta e cinco (mais ou menos) irmãos e irmãs brigavam entre si por restos de rato e pelas pedras mais saborosas, Fizz se escondia em um canto, cozinhando tatus na casca ou fritando alguns belos e crocantes esqueletos de sapo.
Quando o general orc Razgar convocara os clãs goblins para a guerra, Fizz, relutante, amarrara uma tigela na cabeça, prendera uma faca de chef no cinto e juntara-se às fileiras. Mas não demorou muito para que seus comandantes notassem seus talentos únicos, e logo ela se viu deixando a 99ª Infantaria Goblin (os grandes e velhos Descartáveis da Serra Grag) pela segurança relativa das cozinhas de campanha.
Neste dia em particular, ela estava preparando um caldeirão espesso e borbulhante de sua especialidade, Sopa de Coisas que Achei por Aí. Ela pescou uma bota do caldo com sua concha e a mordeu. Franziu a testa, jogou-a de volta, polvilhou uma pitada de cabra em pó e mexeu.
Provou novamente. Ainda faltava algo...
"Láááááá veeeeeeeem baaaaaaaaaalaaaaaaaa!"
Tchibum.
"Quente!", gritou o mensageiro goblin que acabara de aterrissar em sua sopa. "Quente, quente, quente!"
Ela o agarrou pela orelha, tirou-o da sopa, depositou-o ao lado do caldeirão e provou.
Perfeito!
"Chef de Campanha Fizz?", perguntou o mensageiro.
Fizz saudou com a concha ainda na mão, salpicando o mensageiro com sopa.
"Mensagem do general", disse o mensageiro, estendendo um pedaço de pergaminho encharcado.
Fizz o pegou, espremeu-o sobre o caldeirão, desenrolou-o e leu. Seus olhos arregalaram-se.
"O General Razgar quer almoço..."
O mensageiro bocejou.
"...agora..."
Ele esfregou a orelha onde ela o agarrara.
"...em sua tenda..."
O mensageiro lambeu a sopa do nariz e assentiu em apreciação.
"...do outro lado do campo de batalha..."
O mensageiro coçou a cabeça.
"...no meio de uma batalha?!"
O mensageiro deu de ombros.
"Não sei ler", disse ele alegremente. "Foi por isso que me fizeram mensageiro! Chama-se segurança."
Fizz, infelizmente, sabia ler. O bilhete do General era bem específico. Almoço, agora, em sua tenda, do outro lado do campo de batalha. E era bom que chegasse lá quente.
Ela espiou novamente por cima da parede da trincheira, para o caos terrível e mortal da batalha. Nunca conseguiria atravessar aquilo viva, muito menos sem derramar a sopa.
Fizz empertigou-se. Nunca diga nunca, ou pelo menos quase nunca, como sua mãe costumava dizer. Esta era sua chance. Hoje era o seu dia. Ela nascera para isso.
Ela saudou.
"Diga ao general que estou a caminho."
"Hã?", disse o mensageiro. "Eu vou ficar aqui. Você diz a ele." Ele pegou uma tigela e a encheu do caldeirão dela. "Estou no meu intervalo de almoço."
Fizz puxou uma bandoleira da parede e a encheu com saleiros de sal, pimenta e dois tipos de carapaça de besouro. Como ela sempre dizia, temperos eram o tempero da vida.
Provou a sopa uma última vez, tirou o caldeirão das brasas e o ergueu com um grunhido. Teria que cruzar o campo de batalha, mas iria o mais longe que pudesse pelas suas próprias trincheiras. Aquela era, afinal, uma missão importante.
Fizz disparou pela trincheira, sopa em punho, tentando não derramar uma gota. Pedras e flechas choviam. Algumas caíram na sopa. Não tinha problema — elas acrescentariam sabor.
Correu pelo caos, passando por cima de outros goblins, correndo por entre as pernas de orcs e ignorando os gritos de surpresa que a seguiam pela trincheira estreita.
O caminho à frente estava bloqueado por um esquadrão de goblins nervosos que se acotovelavam. Ela desacelerou e parou.
"Com licença", disse ela. "Estou em uma missão urgente para o general!"
Ninguém se moveu. Um dos goblins cutucou o nariz para ela. Ela tentou abrir caminho com o ombro.
"Saiam!", disse ela. Eles não saíram.
Fizz respirou fundo.
"SOPA QUENTE! DANDO PASSAGEM!"
Sopa Quente | Arte de David Palumbo
Os goblins atropelaram-se para sair do caminho e ela continuou correndo...
...até que tropeçou no pé de alguém. O caldeirão de sopa deixou suas mãos e voou pelo ar. Ela mergulhou e pegou o caldeirão quente, caindo com força mas conseguindo não derramar mais do que uma tigela cheia.
Levantou-se, limpou a poeira e olhou ao redor. Atrás dela, a fonte de seu quase desastre era um sapador goblin.
Cabumista Goblin | Arte de Kev Walker
O sapador estava sentado no meio da trincheira. Ele mordia a língua em concentração enquanto usava uma colher de pedreiro — clang! — para socar a terra solta. O monte de terra mal cobria uma...
Aquilo era uma bomba? Sim — sim, era. Um pavio saía do monte de terra, queimando.
Clang!
"O que... o que você está fazendo?", perguntou Fizz. Ela recuou.
"Cavando", disse o sapador. "Bombardeando."
"Nas nossas próprias trincheiras?"
Clang!
Um dar de ombros. "Tem que ser em algum lugar."
"Então... quanto tempo falta para...?"
"Para o quê?", disse ele.
O pavio estava bem curto agora.
"Esquece", disse Fizz. "Eu... vejo que você está muito ocupado."
Clang!
Fizz correu.
A explosão foi muito alta. Seus ouvidos estalaram e terra choveu ao seu redor. Bem, majoritariamente terra.
Fizz dobrou uma esquina e derrapou até parar atrás de uma linha de goblins carregando caldeirões grandes e quentes. Seria aquele o destacamento do almoço? Teria o general pedido muita sopa?
"Transportadores de brasas prontos!", gritou um sargento invisível.
Transportador de Brasas | Arte de Steve Prescott
Ah, não.
Fizz começou a recuar, mas esbarrou em outro goblin carregando um caldeirão enorme que entrara na fila atrás dela. Fizz virou-se para se desculpar enquanto brasas caíam e atingiam o nariz do goblin. Ela deu um ganido e lançou um olhar furioso para Fizz.
"Transportadores de brasas... atacaaaaaaar!"
Bem, ela precisava cruzar o campo de batalha de qualquer maneira...
O goblin atrás dela empurrou as costas de Fizz. Fizz deu de ombros, ergueu seu caldeirão de sopa e correu por uma rampa e para fora da trincheira com os transportadores de brasas.
Bombas explodiam. Goblins se encolhiam. Orcs gritavam. Ao longe, humanos em armaduras reluzentes investiam, brandindo espadas brilhantes e lanças longas e perversas. A uma distância média, o estandarte do general pendia flácido acima de uma tenda grande e suja. Ela estava chegando perto!
Ao redor dela, os transportadores de brasas despejavam suas cargas com um sibilado e, às vezes, gritavam enquanto as brasas quentes choviam sobre eles. Para alguns poucos sortudos — comparativamente sortudos, pelo menos — eles tinham sucesso em sua missão, e era o inimigo quem gritava.
Fizz correu pisando em brasas através de uma faixa de cinzas e continuou correndo.
Goblins se acotovelavam ao seu redor. Orcs latiam ordens. Os sons finos e miados da fala humana eram mal audíveis, embora ela tivesse certeza de que os humanos estavam gritando a plenos pulmões.
Bufando e arquejando, Fizz parou para recuperar o fôlego entre um grupo de irregulares goblins que estavam encolhidos dentro de uma grande cratera.
"É o almoço?", perguntou um.
"Não para você", disse Fizz. Ela estufou o peito. "Saiba que este é o almoço do general."
"Oooooh, o general", disse outro. "Ele já nos mandou para a morte uma vez. O que ele vai fazer se roubarmos a sopa dele?"
"Ele vai mandar esquartejar você e... e... e cozinhar você!"
"Pelo menos assim eu teria algo para comer", resmungou um terceiro.
Os irregulares cercaram Fizz e seu pote de sopa.
"Vocês não vão roubar o almoço do general", disse Fizz. "Eu... não permitirei. Pensem nos... pensem nos..."
"Pensem nos rapazes e moças lá em casa!", gritou uma voz estrondosa.
Ali, na borda da cratera, estava uma figura garbosa, espada erguida.
Mestre da Turba Goblin | Arte de Svetlin Velinov
"Pensem em todos eles sentados em suas tocas, aquecidos e seguros, com bastante comida. Ora, eles provavelmente estão lá pensando consigo mesmos: 'Ainda bem que não estou lutando em nenhuma guerra!'."
Ele parou. Fizz segurou a respiração. Os irregulares inclinaram-se para frente, expectantes.
"Hã, esperem", disse ele, coçando a cabeça. "Isso meio que me escapou."
Os irregulares trocaram olhares.
"Mas o ponto...?", disse Fizz.
"Certo! O ponto", disse ele. "O ponto é... vejam, o que eu quis dizer foi... bem, estamos todos juntos nisso, e se não nos enforcarem separadamente, é provavelmente porque nos enforcaram a todos de uma vez. Ou... algo assim. De qualquer forma, como um grande general disse uma vez..."
Ele ergueu sua espada ao alto e apontou para as trincheiras dos humanos.
"Todo mundo, menos eu — ATACAR!"
Os irregulares vibraram e correram em direção à linha de batalha inimiga. Fizz foi simplesmente levada pela multidão.
"Não, esperem, eu preciso—"
Ela tentou correr de volta pelo caminho de onde viera, mas eles estavam por toda parte. Atrás deles, o goblin que os inspirara encolhia-se na cratera que haviam desocupado.
Correram em uma turba uivante, puxando Fizz consigo. Sua sopa balançava perigosamente. Então estavam sobre a borda da trincheira inimiga. Fizz caiu sobre uma pilha de irregulares gemendo. Saiu dali às pressas e eles correram atacando para dentro do sistema de trincheiras.
Fizz olhou ao redor. As trincheiras eram retas e escavadas com esmero, com paredes altas que não tinham inclinação nem um pouquinho. Procurou desesperadamente por uma saída, mas logo ouviu botas aproximando-se e as vozes estridentes de humanos. Sem outras opções, pousou o caldeirão e escondeu-se atrás dele.
"—não sei por que sequer nos damos ao trabalho", um deles dizia. "Pela maneira como lutam, eles se matariam sozinhos se os deixássemos em paz."
"Você sabe que isso não é verdade", disse outro. Este tinha uma voz ainda mais aguda. Uma mulher? "Eles se reproduzem como ratos e lutam como cães raivosos. Com os orcs no comando, eles poderiam invadir toda a fronteira ocidental."
"Deveríamos ir para as montanhas e matar todos eles", disse a primeira voz, aproximando-se ainda mais. "Arrastá-los para fora de suas tocas e—"
Fizz fervilhava de raiva. Os humanos dobraram a esquina e o primeiro soldado interrompeu-se.
"Ei, o destacamento do almoço apareceu pela primeira vez!"
Ah, não. Não, não, não, não, não.
"Tem certeza?", disse a segunda soldada. "Essa coisa não cheira bem."
"Estou com fome demais para me importar", disse o primeiro.
O barulho de tigelas. Um som de líquido sendo sugado. Fizz espiou por trás do caldeirão enquanto o humano erguia uma colher transbordando com a sopa característica de Fizz, soprava nela e a enfiava na boca.
Seu rosto ficou vermelho, depois verde, depois roxo. Ele caiu morto.
A segunda soldada recuou horrorizada.
"Ataque químico!", gritou ela. "Feitiços de proteção, agora!" Ela saiu correndo pela trincheira.
Fizz saiu de trás do caldeirão. O soldado parara de se contorcer.
"Arrastar você para fora da sua toca", murmurou Fizz. "Idiota."
Subindo no peitoral dele, ela mal conseguiu erguer o pesado caldeirão para fora da trincheira e subir atrás dele.
A batalha parecia estar indo a favor deles. Mas ela precisava se apressar. Ainda distante, mais à sua esquerda do que ela esperava, estava a tenda do general. Ela começou a correr.
Passou por uma seção silenciosa do fronte, por onde a batalha já passara. Alcançou o topo de um monte de terra e viu uma oportunidade.
Ali, sentado no chão, estava um sapo-balão goblin meio murcho. O sapo arquejava contente. A gôndola jazia de lado, e dois tripulantes goblins discutiam sobre de quem era a culpa.
"Com licença", disse Fizz.
Ambos os goblins viraram-se.
"Estou em uma missão muito importante para o general", disse Fizz. "Preciso chegar à tenda dele imediatamente. Voem comigo até lá e sua recompensa será... algo, provavelmente!"
Os goblins deram de ombros.
"Melhor que ficar aqui esperando os humanos voltarem, eu acho", disse um deles.
"Isso é... sopa?", disse o outro.
"Pode apostar que sim", disse Fizz. "Vão!"
"Bem, vocês ouviram!", disse o primeiro tripulante. "Inflem o sapo!"
"Eu estou bem aqui", disse o outro.
Após muita reclamação, alguma inflagem frenética e apenas um pouquinho de saliva de sapo na sopa, o balão começou a subir no ar.
Brigada de Balões Goblins | Arte de Lars Grant-West
"Entre!", disse um dos goblins. A gôndola subiu mal saindo do chão.
"Não dá tempo! Vou querer aterrissar rápido."
Ela enrolou uma corda pendente em um braço, deu uma volta na sopa e segurou firme.
"Isso", gritou o outro goblin acima dela, "é a coisa mais estúpida que eu já vi".
)
O General Razgar estava sentado em sua tenda, tentando se concentrar no mapa de batalha em meio a uma fome crescente e especialmente ranzinza.
Seu estômago roncou alto o suficiente para ser ouvido acima dos sons da batalha.
"Onde está minha sopa?", berrou ele.
"E-e-e-e-e-eu enviei um mensageiro", disse Yort, seu ajudante goblin. Ele se rastejava. Era absolutamente patético, e Razgar gostava dele assim.
"Apenas um?", gritou Razgar.
"S-s-s-s-sinto muito, meu senhor!", disse Yort. "Enviarei mais. Enviarei — enviarei dúzias! Mas o senhor disse que queria a melhor, e Fizz é—" Ele parou e apurou os ouvidos. "Que barulho é esse?"
Goblins tinham ouvidos mais aguçados que orcs — uma de suas pouquíssimas vantagens, além da pura taxa de reprodução — então levou um momento para que Razgar também ouvisse.
"Dando passaaaaaaaageeeeeeeeeeeeeem!"
Yort abriu a lateral da tenda para revelar uma visão absurda: uma civil goblin segurando um caldeirão enorme pendurado em um sapo-balão goblin.
A goblin derrapou para dentro da tenda, caindo de cabeça e parando com um grunhido em uma pilha de mapas. O caldeirão de sopa atingiu o chão na frente do general, balançando levemente. Ainda estava fumegante.
A chef goblin saiu da pilha de mapas e saudou. Ela chegava até o meio da coxa de Razgar.
"Chef de Campanha Fizz, apresentando-se para o dever conforme ordenado!", gritou ela.
"À vontade", disse o general. "Bem, então, Chef de Campanha. Vamos ver se você é tão boa quanto dizem..."
Ele ergueu o caldeirão inteiro, levou-o aos lábios e começou a beber. Ele ardeu sua garganta e encheu seu ventre e fez seus olhos lacrimejarem, exatamente como uma boa sopa deve fazer.
O gosto era indescritível. Botas, terra, ratos, uma pitada de suor de goblin, um respingo de saliva de sapo e...
Ele parou de beber.
"Isso é carapaça de besouro?"
"Sim, senhor", disse a chef. "Do tipo vermelho e do tipo brilhante, senhor."
Ele bebeu o restante da sopa, pousou o caldeirão com um estrondo e limpou a boca na manga.
A chef goblin esperava ansiosamente.
"Bom trabalho... Chef de Campanha, de Primeira Classe."
A recém-promovida chef brilhou de orgulho. O general acabara de inventar o cargo de chef de campanha de primeira classe, mas aquilo pareceu deixá-la feliz.
"Sim", disse ele. "Isso estava muito bom."
Ele olhou para a batalha que ainda rugia. Estavam vencendo, mas haveria muitas horas de limpeza.
"Na verdade", disse ele, "acho que aceito outra".
Sonhos dos Malditos
Por Nik Davidson | 06/08/2014
O demônio Ob Nixilis é envolto em mistério. Não conhecemos suas origens — de onde ele vem, ou mesmo se sempre foi um demônio. Sabemos isto: ele já foi um Planinauta, até ser destituído de sua centelha e aprisionado no plano de mana selvagem de Zendikar há milhares de anos. Desde então, ele tem executado lentamente um plano para recuperar seu poder e escapar.
)
Demônios não dormem.
Lembro-me do sono, é claro. E lembro-me de como me senti no início, meu pequeno prêmio de consolação, o fato de que não precisava mais sacrificar um terço da minha vida às minhas patéticas limitações mortais. Esta forma sente pouca dor. Não se cansa. Mas isso apenas me deu mais tempo sozinho com minha raiva. Eu era um conquistador. Eu sou um conquistador. No entanto, sofrera duas derrotas sucessivas. A primeira roubou meu corpo. A segunda, minha centelha.
Em minha juventude, pensei que fosse invencível. Achei que havia provado ser invencível. Conquistar seu primeiro mundo é o mais difícil, afinal. Meu poder crescia conforme eu me movia de mundo em mundo, tomando qualquer coisa que tornasse a próxima conquista mais fácil. Quando ouvi falar do Véu, pareceu um prêmio grande demais para recusar. Fui um tolo. Tal arma só pode destruir quem a empunha.
)
Nas profundezas abaixo da superfície, o demônio trabalhava em silêncio. A caverna era iluminada apenas pelo brilho tênue de uma escrita rúnica, gravada nas dezenas de hedros que revestiam as paredes. Ele girou um hedro alguns graus e proferiu um breve encantamento. As runas brilharam, alaranjadas e radiantes, mas a luz desapareceu rapidamente. Ele girou um segundo hedro, repetiu o feitiço e observou enquanto as runas brilhavam novamente. A luz durou um pouco mais desta vez, um aumento de duração quase imperceptível. O demônio riscou notas no chão de pedra com uma garra de obsidiana e passou para um terceiro hedro.
)
Conhecer a liberdade do Multiverso e tê-la arrancada — é uma tumba. Saber que existem mundos infinitos para serem colocados sob meus pés, para beber de fontes de poder inimagináveis… e então tudo se vai. Tudo perdido. E estou preso neste mundinho nojento, languescendo sobre esta colônia de insetos apressados, nem sequer dignos de serem governados.
Quando a profundidade total desse fato se assentou, foi a primeira vez que desejei o sono. Desejei cansar-me, descansar, deixar o tormento acabar, nem que fosse por algumas horas inquietas. Isso nunca poderá acontecer.
Então, o que fazer para passar o tempo? O povo deste mundo oferece pouca diversão. Os humanos deste lugar são covardes e vagabundos. Eu os cacei, brinquei com eles. Tão monótono. Os elfos são primitivos, mas ao menos eles resistem e lutam. Seus ossos estalam como as aves de caça que eu costumava caçar, tantos séculos e planos atrás. E só se pode esmagar um certo número de goblins antes que o ato perca seu charme. Bem, a maior parte do charme. Eles fazem um ruído muito engraçado. Depois há os kor. Eles me evitam. Eu os evito. Porque em cada um de seus rostos presunçosos e gredosos, eu vejo ela.
A autoproclamada protetora de Zendikar. Nahiri.
)
Nas profundezas abaixo da superfície, um poder despertou. Linhas de magia enterradas sob incontáveis toneladas de rocha e terra lentamente ganharam vida, e uma passagem se abriu. Uma luz verde pálida escapou das profundezas, e o demônio encolheu as asas rente ao corpo para se espremer pelo caminho estreito.
)
Poderia haver um lugar mais miserável em todas as Eternidades? Fui atraído por ele como tantos outros. O mana aqui é rico e poderoso. Este lugar é uma armadilha. Pensei que, com o poder a ser ganho aqui, eu poderia purgar minha maldição, queimar esta infecção e restaurar minha forma. Nunca tive a chance de descobrir. Mal terminara de me situar quando ela atacou.
Ela nunca demonstrou um pingo de emoção ao fazê-lo. Talvez o mais leve vestígio de piedade. Sua magia vinculante era como nada que eu já tivesse encontrado. Nunca foi sequer uma luta, e eu nem sequer consegui gritar enquanto ela prendia o hedro em meu interior.
Naquele momento, tudo cessou.
)
As paredes daquela passagem sacudiram, e pedra moída choveu nas costas do demônio. As laterais da passagem subitamente se comprimiram. As profundezas de Zendikar haviam detectado um intruso, e a própria pedra buscava expurgá-lo. Ele ganhou um momento escorando-se entre as paredes e murmurou um feitiço. A vitalidade da pedra foi drenada, a força animadora apagada, e a rocha desmoronou em uma esfera perfeita ao redor da forma agachada do demônio. Através de pequenas fendas, o brilho verde o chamava. Ele começou a cavar.
)
Minha maldição foi interrompida. O chamado daquele lugar distante simplesmente desapareceu. Mas todo o meu poder desapareceu com ele. Quando pude finalmente me erguer do chão, os ossos em meus ombros esfarelaram. Minhas asas eram inúteis — caíram alguns dias depois. A coisa que ela colocou dentro de mim tornou-me pequeno. Fraco. Isso não é algo que eu possa perdoar. E por isso, um dia, terei minha vingança.
Isso foi há séculos. Nunca mais a vi. Mas vejo o rosto dela em minha mente como se fosse ontem.
Alguns dos vampiros aqui vivem tanto tempo, mas eles têm o bom senso de ou enlouquecer ou esquecer. Sabia ela que, ao fazer isso comigo, preservaria minha mente? Com o tempo, tornou-se claro para mim que o hedro dentro de mim era um objeto de grande poder.
Poder. A linguagem universal.
)
O demônio arranhara a pedra por semanas. Passou dias rasgando lentamente estratos muito mais densos. O ar no pequeno bolsão de pedra era rarefeito, reabastecido apenas por uma pequena esfera rúnica que ele tomara de um mercador tritão. Duas vezes parara, a fim de deixar suas garras crescerem novamente. Quanto mais se aproximava da fonte do brilho, mais rápido se curava.
)
Estudei os hedros por séculos. Conheço a magia deles melhor do que ninguém, exceto quem os fez. E quando um Planinauta vinha a este lugar, eu fazia questão de me apresentar. Visitantes de um lugar estranho e novo precisam de um guia; precisam de informação. Fiquei feliz em ajudar. Houve dezenas ao longo dos anos incontáveis. Deixei que soubessem da minha condição. Deixei a informação filtrar-se além dos limites deste esgoto. E, com certeza, alguma criança arrogante finalmente mordeu minha isca.
Uma das lições mais importantes que um conquistador precisa aprender é que, quando os outros acreditam ser mais espertos que você, você simplesmente os deixa continuar acreditando nisso. Até o momento em que param de acreditar em qualquer coisa de vez. Depois de todo esse tempo esperando, algum orgulhoso filhote de Planinauta veio me encontrar; para me abater e extrair o hedro. Centenas de anos de planejamento para fazer este dia acontecer, e tudo em que pude me focar foi em oferecer luta apenas o suficiente para não despertar suspeitas. Nunca duvidei que este dia chegaria.
Foi tudo o que pude fazer, deitado ali no pântano, para não rir.
)
Nas profundezas abaixo da superfície, o demônio estendeu a mão gentilmente para dentro da pequena esfera de vida. Retirou um pequeno punhado de solo e uma minúscula flor, brilhando em verde e ouro, em sua palma. Ela irradiava poder, calor e saúde. As passagens antigas abriram-se com um estalo, e ele a aninhou com cuidado enquanto caminhava de volta à superfície, sua risada ecoando nas paredes.
)
Os Eldrazi e sua progênie continuam seu massacre. Não se pode deixar de admirar a eficiência com que exterminam e corrompem. De tempos em tempos, divago sobre o que eu poderia realizar com um exército assim. Não importa. Algumas almas equivocadas virão para lutar contra os Eldrazi. Elas não podem evitar, heróis são como formigas enxameando sobre um doce descartado. Quando chegarem, precisarão saber o que eu sei. Os hedros foram criados para isso — uma arma como nenhuma outra, e eu posso ser o único vivo que sabe como funcionam.
Mas eu sei para que mais eles podem ser usados também.
O poder está retornando para mim. Senti este mundo estremecer quando Bala Ged foi destruída. Naquele momento, pude cheirar o Multiverso novamente. Minha centelha está ao alcance. Sei o que devo fazer. E que o único custo para recuperar minha centelha será a obliteração completa do mundo que mais odeio entre todos eles?
Demônios podem não dormir.
Mas nós sonhamos.
O Diário do Lunarca
Por Colin Kawakami | 13/08/2014
No plano de Innistrad, o anjo Avacyn retornou para guiar seus fiéis adoradores, repelindo as trevas que governavam o plano enquanto ela estava selada. Os monstros do plano estão em retirada, a igreja está ressurgindo e em toda parte a humanidade está voltando para a luz.
Mas nem tudo está bem em Innistrad. Mesmo na luz, alguns segredos deveriam permanecer ocultos. Especialmente segredos sobre a própria Avacyn...
)
Faz anos que não seguro uma pena, mas sinto-me compelido a registrar o terrível segredo que descobri e como ele chegou às minhas mãos. Eu seria morto por esta heresia e, embora não tenha medo da morte, ela pode ser um destino preferível. Pois isto é loucura, certamente, um vácuo de verdade onde agora estou selado.
Sou Dovid, outrora um cátaro do Pálido, gravemente ferido na batalha da Muralha da Criança, agora comitante dos anjos dos Sotos. Minhas memórias da batalha são apenas fragmentos — a lâmina estilhaçada do meu hanger enquanto eu a arrancava de um cadáver vivo; o gosto do meu próprio sangue enquanto eu caía; um silêncio no qual eu sabia que a morte era certa; e então uma luz ofuscante quando, finalmente, Avacyn apareceu.
Avacyn, Anjo da Esperança | Arte de Jason Chan
Meu braço direito era uma ruína pavorosa e fui levado para a triagem no pátio da catedral, onde jazia febril sob uma tenda de lona, visitado por um clérigo que se tornava mais otimista a cada manhã que me encontrava ainda respirando. A princípio, eu era incapaz de me mover, mas mesmo quando os gritos de vitória ecoavam contra as altas muralhas de pedra, eu simplesmente carecia de vontade. Teria ficado ali para sempre, se ela não tivesse vindo me buscar.
Os gemidos dos feridos tornaram-se como os arrulhos de bebês confortados por suas mães. Eu estivera entorpecido a qualquer cuidado, mas mesmo antes de ouvir a voz dela algo despertou dentro de mim, e voltei meu rosto para o céu.
Avacyn estava lá, flanqueada por um anjo menor do Esquadrão das Garças.
"Você nos prestou um serviço árduo, e sofreu mais do que a maioria, mas temos mais necessidade de você. Levante-se agora, Dovid do Pálido." Sua voz era sem ternura, no entanto fui preenchido de amor, e me ergui como se não tivesse peso.
"Os Sotos da Catedral de Thraben foram abandonados por muito tempo, mas logo retornaremos. Você, e somente você, deve preparar aquele espaço anteriormente proibido. Poderia você nos recusar?"
Balancei a cabeça, lentamente, depois me recompus.
"Não, nunca. Sou seu servo, e sua vontade é a minha."
Seus olhos eram como pérolas belas demais para serem contempladas.
"Assim seja. Esta é Gryta." O anjo ao lado dela deu um passo à frente, uma cabeça inteira mais baixa que Avacyn, no entanto eu ainda inclinei minha cabeça para olhar seu rosto. "Ela lhe mostrará o caminho e transmitirá nossas instruções nos dias vindouros."
E sem pausa ou cerimônia, Avacyn alçou voo, silenciosamente, como uma coruja. Gryta observou-me com a curiosidade que se daria a uma fruta com uma deformidade única.
"Então, Cátaro, você conhece aquele ponto, no alto da muralha, onde deveria haver uma janela?" Ela gesticulou com sua asa, e eu o vi imediatamente: um arco único, fechado com tijolos. "Encontre-me lá e eu lhe mostrarei como entrar nos Sotos." Houve um ímpeto de ar e então ela também estava no ar, muito acima de mim.
Serafim da Alvorada | Arte de Todd Lockwood
Foi assim que me tornei o Comitante Dovid.
)
É estranho como a posição me distanciou dos cátaros e de outros oficiais da igreja. Sou invejado pelo menos tanto quanto sou honrado, e desconfiado tanto quanto sou respeitado. Carrego a primeira espada forjada dos restos do Cofre Infernal e caminho pelos salões superiores de Thraben como um fantasma. Há momentos em que passo dias sem pronunciar uma única palavra em voz alta.
Os anjos são seres maravilhosos e poderosos, mas é na presença de sua beleza onde me sinto mais sozinho. Nos Sotos, eles cantam sem palavras, suas vozes como carrilhões. Os Esquadrões têm mantras separados que não podem ser pronunciados por uma língua humana, um som que frequentemente confundi com chuva.
Achamos fácil adorá-los, e seu poder e beleza fazem com que seja assim, mas eles não são como nós, vejam bem, em nada além da forma. Por toda a adulação que lhes damos, eles estão mais longe de nós do que nós estamos de uma lontra ou de uma carriça. Talvez nossa adulação seja o que faz com que seja assim.
Apenas Gryta fala comigo e, embora sua fala seja impecável, passei a acreditar que é algo que ela faz deliberadamente, com grande esforço. Sou tolo por pensar que ela me favorece, mas mesmo agora parte de mim acredita que seja verdade.
Naquele primeiro dia, procurei por horas antes de encontrar as escadas que me levaram à alta muralha onde Gryta esperava. Era uma queda abrupta sem parapeito e, enquanto me forçava a olhar para ela, o medo devia estar estampado em meu rosto.
"Você não cairá, Dovid." Seus olhos eram de um castanho profundo e pareciam totalmente humanos. "Ou, se cair, eu o pegarei. Coloque suas mãos sobre estas pedras, aqui e aqui."
Fiz como ela instruiu, e ela murmurou na língua angélica, algo como um eco, ou uma moeda girada dentro de uma garrafa. A janela de tijolos dobrou-se sobre si mesma silenciosamente, e pareceu tão natural quanto a abertura de uma porta.
Santuário dos Serafins | Arte de David Palumbo
"Existem muitas maneiras de entrar nos Sotos por dentro da catedral, e todas elas o reconhecerão agora." Eu esperava que o ar estivesse viciado, mas era leve e doce. "Limpe a cisterna primeiro. Eu saberei quando tiver terminado."
Virei-me para reconhecer seu comando, talvez gaguejar algum agradecimento, mas ela já estava caindo, despencando em direção ao chão antes de disparar para o alto novamente, sobre o telhado, e sumir.
)
Os fragmentos do Cofre Infernal foram coletados após ele se partir, e o minério de prata bruto foi distribuído entre os mais distintos ferreiros lunares. Uma família de espadas foi forjada daquele metal, e Gryta ditou uma lista de nomes que recebera de Avacyn, pessoas que seriam homenageadas em uma festa presidida pelos Esquadrões. Quando terminamos, Gryta acrescentou no que pareceu um pensamento tardio: "E seu nome também, Dovid. Coloque-o no topo".
A minha é uma espada mortuária, com uma cesta esculpida onde as asas do rosto de Avacyn alcançam o ricasso. Entre essas asas, o nome da minha espada está gravado: Eost. Eu a desembaínhara apenas uma vez, durante a cerimônia em que me foi apresentada, quando Avacyn tocou sua ponta. É leve como o ar e afiada o suficiente para partir ao meio uma pedra de rio, mas duvido que algum dia a empunharei. Meu braço é quase inútil, e estou enclausurado aqui.
Cátaro Ancião | Arte de Chris Rahn
Eost descansa em um estojo acima da minha mesa, mas percebi que meu olhar se desviara novamente para a fonte do meu tormento. Abaixo da minha espada, e ao lado do diário em que agora escrevo, há outro, notavelmente semelhante, escrito em uma letra precisa e feminina. O frontispício é uma iluminura primorosa do colar de Avacyn, e na página oposta está um nome: Mikaeus Cecani, Lunarca.
)
Os Sotos estavam em bom estado, e os espíritos que os assombraram durante a ausência dos anjos fugiram de mim quando entrei. A cisterna é maciça e, quando Gryta me ordenou limpá-la, imaginei que sua fonte estaria de algum modo obstruída. Em vez disso, encontrei-a cheia de água límpida, iluminada por dentro e brilhando como a face da lua.
Metade submerso na bacia estava o corpo de um homem vestido de preto, e soube que era por isso que eu fora enviado. Ele fora estrangulado e, embora não houvesse sinais de apodrecimento, fora assassinado algum tempo antes, mas fora então preservado pelas águas dos Sotos.
Quando o arrastei para a pedra fresca, o livro desprendeu-se de dentro de seu casaco. Eu não tinha como saber o que continha, quem fora seu autor ou por que estava ali em posse de um homem morto, e fui preenchido de pavor. Algo fora interrompido ali, algum plano maligno frustrado, e eu era agora sua testemunha.
Cripta do Arcanjo | Arte de John Avon
Mandei selar o corpo em uma cripta sem nome nas profundezas das catacumbas e retornei aos meus aposentos com o livro.
)
O diário estava selado com um feitiço que reconheci como sendo dos Cátaros do Anoitecer, e uma lua passou antes que eu o resolvesse. Inicialmente, fiquei jubiloso por ter encontrado tal artefato, e disse a mim mesmo que anunciaria a descoberta após me familiarizar com seu conteúdo.
Não fiquei surpreso com a primeira revelação: Avacyn fora selada no Cofre Infernal com o demônio Griselbrand e, durante esse tempo, nosso poder diminuíra. Isso era conhecido apenas por Mikaeus e pelos mais altos Planejadores, um segredo que mantiveram para evitar agitação na congregação.
Cofre Infernal | Arte de Jaime Jones
Mas a passagem que me empurrou para a apostasia foi muito pior.
Há incontáveis eras, E. Markov negociou a blasfêmia que criou sua raça imunda de vampiros. Com o demônio Shilgengar, planejaram uma fórmula para transformar homens vivos nesses monstros que se alimentavam de seus próprios irmãos e irmãs. O ingrediente chave era o sangue de um anjo vivo...
... Markov e seus filhos prenderam o anjo Marycz em seu laboratório e exauriram seu sangue antes de prepararem a decocção profana que deu início a um ciclo de medo e predação sob o qual sofremos hoje.
A maldição do vampiro que fomos treinados para combater foi criada pelos próprios humanos. Eu pensara que fôssemos nobres, a raça que carregava a luz contra o mal de nosso mundo. Seríamos dignos de defesa?
Nobre de Falkenrath | Arte de Slawomir Maniak
Preocupei-me com isso mesmo enquanto descia mais fundo nos segredos da igreja que Mikaeus registrara. Teria eu parado então se soubesse a magnitude da decepção que encontraria?
Os humanos estavam travando uma batalha perdida. Os vampiros eram simplesmente poderosos demais e, após gerações de multiplicação, chegaram a quase nos superar em número.
Cada batalha que os vampiros venciam, cada vida humana que tiravam, servia para enfraquecê-los, enquanto nossas próprias vitórias eram vitórias para ambos. Esta guerra não era entre humano e vampiro. Éramos aliados contra um inimigo comum: a própria fome dos vampiros.
É uma ironia cruel que nossa salvação tenha nascido da família Markov, S. Markov, uma criatura tão antiga e poderosa que sobrevive até hoje. Vendo que a nossa destruição e a deles estavam inexoravelmente ligadas, Sorin criou Avacyn, uma força para reunir nossos anjos restantes, uma força sob a qual pudéssemos nos unir.
Sorin, Senhor de Innistrad | Arte de Chase Stone
Uma força construída para manter em xeque os próprios vampiros que a criaram.
A partir daí, a igreja foi projetada para nos dar o poder de proteger e aumentar nossos números, mas não o suficiente para jamais nos trazer a vitória sobre aqueles que se alimentavam de nós...
Somos gado. Somos participantes involuntários do nosso próprio cultivo.
A igreja à qual dediquei minha vida, o ser que amei desde o nascimento, os limites do meu mundo, tudo isso é uma mentira sinistra.
Como este mundo é estranho, e quão cruel.
Avacyn, Anjo Guardião | Arte de Winona Nelson
Monstro
Por Ken Troop | 20/08/2014
Garruk Falabravo não é mais o homem que um dia foi. Amaldiçoado por Liliana Vess e pelo poder sinistro do Véu de Corrente, ele voltou seus instintos selvagens para a caça da presa mais perigosa de todas: outros Planinautas. Se não fosse impedido, ele teria aberto caminho através da multidão de planos.
E ele não é o único que quer saber…
)
Ele preferia caçar sua presa. Mover-se, perseguir, antecipar, observar o medo da caça reduzi-la aos rituais instintivos que a vida segue enquanto a morte persegue. Tantas formas diferentes de vida, todas com armas, defesas, estilos e conhecimentos diferentes; mas diante da caçada, todos agem da mesma forma — a falta de ar e as curvas instintivas, os olhos arregalados e o último surto de velocidade, os estágios finais de ser uma presa. Ser caçado era morrer. Caçar era viver.
Ele odiava esperar. Estivera imóvel na vegetação rasteira por várias horas. Sua perna direita tivera cãibras fortes e intermitentes por vinte minutos. Ele não gritara. A dor era intensa, mas administrável em comparação com a outra dor recente pela qual seu corpo passara. Mas então, ser esfaqueado com adagas na garganta parecia administrável comparado à dor pela qual passara. Embora não pudesse vê-lo, conseguia sentir o hedro alojado em sua carne, pulsando suavemente como um segundo coração.
Sua chance de uma segunda vida, de certa forma. O hedro era frio e alienígena. Muitos anos atrás, ele teria enlouquecido com essa intrusão de magia e artifício diretamente em seu corpo. Não havia como escapar de sua presença. De sua pulsação. O hedro vibrava, embora em uma melodia e tempo que apenas ele conseguia ouvir. Ele viveria com isso, no entanto. Seu corpo e sua mente eram seus novamente. Essa liberdade valia qualquer preço.
No Rastro de Garruk | Arte de Chase Stone
Ele esperara por sua presa por muito tempo. Era seu terceiro dia de volta a Shandalar, esperando captar um vislumbre. Quando deixou Shandalar pela última vez, pensou que nunca retornaria. Mas ali estava ele, apenas semanas depois. Uma nova caçada, uma nova caça.
"Garruk." Era um sussurro de brisa. Uma voz feminina suave e baixa. Uma pela qual ele um dia procurara.
"Garruk." O sussurro veio de trás dele. Garruk ergueu-se lentamente. Não havia mais necessidade de pressa. Ele fora encontrado. Virou-se, e um pequeno ponto de luz branca dançando na clareira da floresta à frente lentamente tecia oitos. Conforme Garruk se aproximava, a luz fugia, mais fundo na floresta.
À frente de uma clareira aberta, névoas coalesciam em poças turvas entre um grupo ralo de árvores. O ponto de luz desapareceu na névoa. Garruk não conseguia distinguir nenhum detalhe por trás da gaze opaca e cintilante. A maioria dos sentidos de Garruk fora alterada durante a maldição, a maioria para pior. Com o hedro mantendo a maldição sob controle, não houvera mais danos, mas também não houvera cura. Mais insultos e ferimentos.
Uma figura saiu das névoas para a clareira. Longos cabelos negros como corvo emolduravam um rosto belo. Havia gravuras leves em seu rosto e braços, linhas rúnicas finas, mas na luz fraca da floresta eram invisíveis, embora Garruk soubesse que estavam lá. Seus olhos normalmente violetas-claros estavam obscurecidos por um brilho arroxeado suave. A maioria descreveria o sorriso em seu rosto como atraente, mas Garruk conhecia a crueldade fria que o impulsionava. Seu vestido e calças eram exatamente os mesmos da última vez que se encontraram, quando Garruk tentou ao máximo matá-la.
Ele falhara. Soltou seu machado da bainha em suas costas e o sacou. O cabo repousava gentilmente em suas mãos. O machado fora um caro amigo ao encerrar as vidas de muitos Planinautas quando Garruk estava no auge da maldição. Ele apenas não encerrara a vida da Planinauta que o amaldiçoara. Ainda não, pelo menos.
"Liliana Vess." Sua voz era um rugido profundo que ecoou pela clareira. O sorriso dela tornou-se um esgar aberto.
Liliana do Véu | Arte de Steve Argyle
"Garruk. Você está parecendo consideravelmente melhor do que na última vez que nos encontramos. Sempre achei que matar é uma maneira eficaz de permanecer saudável. Você deve estar muito saudável."
Sua voz era como chicotadas doces de cetim. Seus ombros nus inclinavam-se e balançavam levemente enquanto ela falava. Garruk perguntou-se quem dos dois matara mais. Reconheceu a contragosto que talvez não vencesse aquela disputa. Continuou parado na borda da clareira, mantendo o machado firme.
"Nenhum rugido primal? Nenhum brandir de machado tentando fender meu crânio? Ora, Garruk, quase não ficaria envergonhada de convidá-lo para um jantar. Encontre uma maneira de remover seu cheiro e esse hedro projetando-se de você e você poderia até ser apresentável como meu acompanhante."
Garruk nada disse. Recocou o machado em sua bainha e caminhou lentamente em direção a Liliana. Ela ergueu os braços, e o mesmo brilho roxo que impregnava seus olhos iluminou suas mãos. A última vez que Garruk vira aquele brilho nas mãos de Liliana, significara uma grande quantidade de dor para ele. Continuou sua caminhada lenta em direção a ela.
"Quão perto de me matar você esteve na última vez? Você tinha as mãos no meu pescoço, espremendo a vida de mim, seu hálito fétido ameaçando ser minha última sensação. Por baixo da sua raiva, eu conseguia sentir sua empolgação, seu desejo de matar. É glorioso, não é, ver a vida fugir daqueles que o feriram, daqueles que o injustiçaram? Como as pessoas saberiam que existem consequências, a menos que pessoas como você e eu existissem?"
Liliana continuou, com o brilho roxo de suas mãos erguidas intensificando-se. Mas nenhuma magia irrompeu. Nenhuma gavinha sombria para agarrar Garruk nem carniçais surgindo do chão para retardar seu caminho.
Garruk contemplou deixar essa farsa arrastar-se mais, mas precisava voltar a caçar sua presa.
"A aparência é perfeita, e você acertou a voz dela. Mas os cheiros estão todos errados, Beleren."
Garruk parou a poucos metros de onde Liliana estava. A forma dela oscilou e dissolveu-se, e uma forma muito diferente e mais feia a substituiu.
A figura mal chegava ao meio do peito de Garruk, um homem magricela e franzino, vestido com um manto e roupas azuis. Seu capuz estava levantado, obscurecendo seu rosto, mas Garruk sabia o que veria se o capuz estivesse baixado. Na última vez que Garruk vira Jace Beleren, Garruk tinha as mãos ao redor do pescoço do homem menor, tentando matá-lo. Garruk reconheceu um padrão, e sorriu. Liliana poderia ter sido uma ilusão, mas ela estava certa. Ele gostava de matar.
Jace olhou para cima de sob o capuz. "Você matou muita gente, Garruk. Tenho que garantir que isso não aconteça de novo."
Jace, o Pacto das Guildas Vivo | Arte de Chase Stone
"Eu não poderia tê-los matado se você não os tivesse enviado para me encontrar em primeiro lugar. Pare de tentar me encontrar, e as pessoas não morrerão." Garruk sentia o peso do machado em suas costas, e sabia de quanto tempo precisava para sacá-lo e golpear. Mas àquela distância, não precisava do machado.
"Podemos ajudá-lo. O hedro nos comprou tempo. Volte comigo para Ravnica. Já convoquei alguns de nossos melhores curandeiros…"
"Quem é esse nós? Onde vocês estavam quando meu corpo era torturado pela dor, quando minhas invocações apodreciam diante de mim, quando vozes buscavam reivindicar meu corpo e mente?" Sua voz terminou em um grito. Suas mãos fecharam-se em punhos antes de relaxarem e então se fecharem novamente.
"Garruk, você precisa vir comigo. Precisamos garantir que você seja curado, que não matará de novo." A voz de Jace era calma, firme, confiante, como se perfeitamente projetada para levar Garruk à fúria.
"E se eu quiser matar de novo? Talvez agora mesmo?"
"Então eu o impedirei. Garruk, este não é você. O hedro apenas mantém a maldição sob controle, não o curou. Venha comigo." Jace estendeu a mão. Garruk a pegou.
"Você não vai me levar a lugar nenhum." Garruk puxou Jace em sua direção e deu-lhe uma cabeçada. Jace explodiu em vidro, estilhaços voando para todos os lados, e Garruk sentiu o sangue pingando de seu rosto onde o vidro o cortara. Ilusões podiam ferir.
Mas ele também podia. Ele rugiu na clareira enquanto sacava seu machado. Figuras de Jace surgiram ao redor dele, cada forma uma cópia perfeita, mãos erguidas em uma postura defensiva.
"Não quero machucá-lo, Garruk."
"Sorte a minha, eu não sinto o mesmo."
"Garruk, esta não é uma luta justa. Você já sofreu o bastante. Por favor. Venha comigo."
Garruk brandiu seu machado através das ilusões. Cada uma se estilhaçou como vidro. O ar ao redor de Garruk solidificou-se em uma gosma gélida, seus movimentos desaceleraram, sua respiração tornou-se pesada.
Fantasma de Teia | Arte de Jon Foster
"Estas ilusões são boas, Beleren. Mas para serem tão boas…" O braço de Garruk disparou para o lado e encontrou o que deveria ser uma forma invisível. "…você tem que estar muito perto."
A mão de Garruk fechou-se ao redor do pescoço de Jace. Pela primeira vez na vida, Garruk viu uma expressão de surpresa no rosto de Jace Beleren.
"Como? Garruk…"
Ele não implorou. Garruk respeitou isso.
"Primeiro, você passa tempo demais dentro das mentes. Preste mais atenção ao mundo real, Jace. Segundo…"
Garruk viu um tremor à sua frente, e uma imagem fantasmagórica de Jace sobrepôs-se à real. A imagem de Jace alargou-se apenas um pouco, e as mãos de Garruk automaticamente afrouxaram para se ajustar. Isso se repetiu até que o Jace real tivesse espaço suficiente para deslizar lentamente o pescoço para fora do aperto de Garruk. Garruk apertou o cerco com força.
"Como você…? Você não deveria ser capaz de…" As palavras de Jace cessaram enquanto ele lutava para respirar.
"Segundo, você confia demais em ilusões. Aprenda a lutar, homenzinho!"
O rosto de Jace ficou roxo. Garruk afrouxou o aperto ligeiramente. Jace deu um grande gole de ar, e soltou uma única palavra: "Monstro". A primeira vez que Garruk ouvira aquela palavra de Jace durante seu primeiro encontro, fora como um golpe.
Garruk riu. "Você tem razão, sou um monstro. Terceiro, e esta é importante: se você vier atrás de mim de novo, ou enviar alguém, você morrerá. Duvida de mim?"
Jace balançou a cabeça. Ele ainda não parecia assustado. Ao menos o mago mental não era um covarde completo.
"Eu não posso…" A voz de Jace era rouca, e ele lutava para recuperar o fôlego. "Não posso deixá-lo como um maníaco homicida. Eu tenho que…"
Garruk suspirou.
"Vá em frente e me leia, Beleren. Não sou tão complicado."
Garruk sentiu o toque estranho em sua mente e, apesar de tudo o que fizera para preparar o encontro, quase encerrou a vida de Jace ali. Ele mataria toda e qualquer pessoa que pudesse se isso o mantivesse livre.
Engenhosidade de Jace | Arte de Igor Kieryluk
O toque de Jace recuou. Havia uma expressão de desgosto em seu rosto, mas também uma de surpresa, e Garruk pensou ter visto alguma aceitação também.
"Você… você está limpo. Como isso é possível?"
"Porque sou o que sou. Matarei se precisar. Posso até," e ali Garruk abriu a boca em um largo sorriso, "gostar disso de tempos em tempos. Mas se você e os outros me deixarem em paz, não terão nada com que se preocupar. Esse é o melhor acordo que vou oferecer."
Jace ficou pensativo. Garruk o segurava pela garganta, poderia encerrar sua vida em um piscar de olhos, já provara ser imune às ilusões de Jace. Garruk riu novamente. Se Garruk estivesse aberto a ter amigos, Jace poderia ter sido um bom amigo.
"Você venceu", disse Jace. "Deixaremos você em paz. Não irei procurá-lo. Mas, por favor, se mudar de ideia, venha nos encontrar em Ravnica. Algo ainda não está certo aqui. Podemos ajudá-lo."
Garruk soltou. Jace massageou o pescoço, e Garruk via as marcas roxas profundas que deixara. Continuou a sorrir.
"Um último conselho, Beleren. Apenas os melhores caçadores conseguem caçar sozinhos. Você? Você precisa de amigos."
Jace olhou para ele, e uma imagem de uma biblioteca em Ravnica oscilou atrás dele. Imagens de Jace começaram a dar passos para trás em direção à biblioteca, imagem após imagem após imagem, cada uma sobrepondo-se na biblioteca, e apenas o mais leve sussurro de uma imagem restou em Shandalar. E então Jace, e a visão para Ravnica, sumiram.
Ilha | Arte de Yeong-Hao Han
Garruk respirou fundo e, momentaneamente, apoiou-se em seu machado. Ele sentia dor. Tivera que projetar força para Jace, mas ainda estava fraco. O hedro continuava a bater, a vibrar.
Ele não tivera certeza de que seu plano funcionaria. Era estranho para uma caçada terminar com sucesso sem uma morte ou um troféu, mas essa fora a vida de Garruk recentemente. Estranho. Decidiu descansar um pouco antes de deixar Shandalar para seu próximo destino.
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Pouco tempo depois, um homem aproximou-se dele pelo outro lado da clareira, caminhando confiantemente em direção a Garruk. O ar na clareira tornou-se frio, e os passos do homem estalavam alto no chão congelado da floresta. Mesmo com os sentidos diminuídos, Garruk percebeu que deveria ter sentido o cheiro do homem se aproximando, mas o homem não tinha cheiro.
Era alto e magro, vestido com mantos azuis tingidos de prata e preto. Seu rosto era longo e pálido, e seu cabelo branco estava orlado de geada e estalactites de gelo, fazendo-o se destacar como longos espinhos brancos. Seus olhos eram de um azul profundo, sem íris visível.
Garruk pegou seu machado com as duas mãos. "Estranho." Tinha quase certeza de que não estava alucinando novamente, não sentia a mácula ativa em suas veias como sentira em Innistrad, mas não podia ter certeza absoluta. "Quem é você?"
"Estou aqui para levá-lo de volta a Innistrad. Venha comigo agora, Garruk." Sua voz era ríspida e dura. Um tom áspero.
"Eu já não matei todos vocês?"
"Vronos me pagou uma grande quantia em dinheiro. Você voltará comigo agora. Pode vir por conta própria, ou pode vir em um bloco de gelo."
Muitas coisas na situação irritavam Garruk. Ele queria descansar. Estava cansado de pessoas procurando por ele. Garruk não gostava do frio. E o homem ignorara sua pergunta. Garruk precisava chamar o homem de algo. Decidiu por Gelado.
"Você viu o que aconteceu com Vronos." Garruk apontou para a máscara ainda em seu cinto.
"Eu vi. Vi o que aconteceu com todos eles. Precisei de mais tempo para me preparar. Quando estava pronto, vim buscá-lo. Então vi você e Jace Beleren." Havia um tom de incerteza na voz dura.
"Certo, Jace Beleren. Que organizou toda esta caçada em primeiro lugar. Muita gente está morta por causa de Jace Beleren. Você está se voluntariando para estar entre eles?"
"Eu fui pago…"
"Sim, muito dinheiro. Então você tem seu dinheiro, certo? E viu que deixei Jace viver. Porque ele me deixou em paz. Jace não virá buscar o dinheiro de volta. E Vronos certamente não virá buscar o dinheiro de volta. Deixe-me em paz, e você poderá aproveitá-lo."
Garruk conseguia sentir a hesitação, o cálculo na cabeça de Gelado.
"Muito bem. Mas… uma pergunta. Jace Beleren tem uma grande reputação como um mestre mago mental. No entanto, você parecia saber onde ele estava se escondendo. Como?"
"É a comida que eu como. Muito natural. Saudável. Me torna bom em resistir a alterações mentais."
"Você está mentindo para mim. Não deveria mentir para mim. Pode se tornar desagradável para você." O frio intensificou-se. Gelo estalou no ar.
"Você acha que um pouco de frio me deteria?" Garruk sorriu.
Os orbes azuis piscaram por um momento. O ar entre os dois engrossou e desenvolveu um brilho gélido. "Dê um passo em minha direção, fera, e congelarei o ar em seu cérebro e o estilhaçarei. Veremos quão bom você é em resistir a alterações então."
Garruk grunhiu em reconhecimento. "Isso soa desagradável. Foi uma piada. Não sei por que as ilusões de Jace não funcionaram. Talvez ele simplesmente não seja tão bom nelas." Garruk deu de ombros.
Gelado deu um passo para trás, e o ar congelou pesadamente ao redor dele conforme glóbulos de gelo formavam-se suspensos no espaço atrás dele. Os glóbulos refletiam um lugar diferente de onde estavam — uma paisagem branca e gélida coberta por neve à deriva. Os glóbulos de gelo cresceram e circularam ao redor de Gelado.
Garruk ergueu uma mão. "Uma pergunta. Quanto tempo leva para você transplanar?"
Os olhos de Gelado arregalaram-se e sua boca abriu-se enquanto suas mãos se erguiam. Garruk agarrou seu machado, girou e decepou a cabeça de Gelado pelo pescoço, exatamente quando os glóbulos começavam a formar um único portal gélido. Em vez disso, os glóbulos se estilhaçaram e imediatamente derreteram em água aos pés de Garruk. O corpo de Gelado caiu sem vida no chão, sua cabeça rolando para o lado, seus orbes azuis agora cinzentos e parados.
"Tempo demais, ao que parece."
Garruk riu novamente. Ele não precisava mais matar. E certamente não precisava matar Gelado. Mas Gelado pedira para morrer quando ameaçara Garruk. Tivesse Gelado vivido, teria aprendido uma lição valiosa: não ameace monstros.